Clemente Nobrega, pesquisador de gestão e estratégia, autor de Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?, entre outros livros, e do site clementenobrega. com.br.

 
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Respondendo a meus leitores (I)
Leitores me fazem perguntas. Alguns permitem que eu divulgue seus nomes, outros não. Vou responder sem citar nomes. Perguntas deles em azul, minhas respostas em preto.
Você não acha ingratidão falar mal do sistema de saúde depois de ter trabalhado tanto tempo nesse sistema?
Não, não acho. Dei o meu melhor à empresa onde trabalhei (Amil) por 14 anos, e ela deu o seu melhor a mim. Não me considero devedor nem credor. Não considero a empresa devedora nem credora. Estamos quites. Saí (porque quis sair) quando não tinha nada mais a contribuir. Não acho que o sistema de saúde seja ruim por causa das operadoras. O sistema é ruim devido a muitas causas. O que penso está em "A assistencia medica tem remedio"
clique aqui e leia.doc. Nesse texto, eu digo: " Os planos de saúde têm sido apresentados como os únicos vilões nesse enredo, mas isso é errado e injusto: eles são mero reflexo do desequilíbrio do sistema, não a causa. O vilão é o sistema". Já estou fora desse sistema há sete anos, e não gosto de ficar pedindo permissão para dizer o que penso. Este é um blog livre, sem censura. Quem não gosta de algo que escrevo pode registrar diretamente o que pensa no espaço destinado aos comentários de leitores. Só censuro grosserias e maluquices (a meu critério, claro; o blog é meu, certo?). Nunca censuro opiniões.
Você parece ter certo prazer em contestar a autoridade e ser “do contra” com quem faz sucesso. Ridiculariza os gurus, é irônico com Paulo Coelho. Algum problema mais profundo com isso?
Tenho, sim. Acho as autoridades – que usam o argumento da autoridade como argumento – ridículas. Grotescas. Não acredito em ninguém que usa seu sucesso como argumento para ensinar a outros. Sucesso financeiro pode ser sorte. O cara que foi pobre e ficou rico, em princípio, é só isso: um ex-pobre sortudo. Não confiro a ele legitimidade para me ensinar nada. Não o levo a sério assim, a priori. Acho uma pobreza (sem duplo sentido) que o mundo das empresas escolha, como exemplos de sabedoria, pessoas que só têm a riqueza como atributo.
Você não acha que isso trai certo despeito por não ser como eles? Podem não ter mérito, mas são ricos. Você não é.
Isso mesmo. Ser rico deve ser ótimo. Eu adoraria ser rico. Minha diferença deles é que eu sei que sou assim (despeitado). Eles negam que possam ser lucky fools (bobalhões sortudos) e vivem enchendo o saco com sua falação moralizante. Acho ótimo que existam. Diversão garantida.

04/12/2007

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A auto-ajuda quer entrar de qualquer maneira no mundo empresarial. Resistam!
Vejam esta pérola:
“O cientista indiano Amit Goswami acredita que o capitalismo está perdendo espaço para o que chama de “economia espiritual”.
Opinião do cara: “A diretoria de uma corporação inserida na nova onda capitalista não só procura aumentar os lucros materiais de seus acionistas como contribui, literalmente, para os lucros em energia vital”.
Lucro em energia vital? Empulhação.
É só aparecer um hindu de fala macia dizendo coisas incompreensíveis que surge logo uma audiência embasbacada com tanta "profundidade". Se se apresentar como cientista, então, melhor ainda. E tem de ter um molho quântico também, claro, para dar à empulhação sua dimensão suprema. Este, em particular, é demais. Faz aquela cara de “tia velha” e manda:
“A partir da ecologia, só é necessário um pequeno salto para o conceito que a conexão da vida com o meio ambiente é bem mais profunda. Não só apenas por sinais materiais e locais, mas também através da energia vital, e da própria consciência, via uma conexão não local quântica”.
Ninguém vai fazer nada não?
Acho que Amit Goswami é da turma de “cientistas” que dá respaldo ao filme (eu disse filme?) QUEM SOMOS NÓS? – (já
devidamente demolido neste blog) – mas estou sem paciência para checar. Está na hora de voltar a bater nessa bobajada místico-empulhacional-pseudo-ética. Acompanhe próximos posts.
Quem estiver (muito) a fim de ler sobre o cara veja AQUI. Não digam que não avisei.

03/12/2007

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O livro vai morrer?



“Custa US$ 399, tem um nome bobo e é uma tentativa de criar uma categoria de produto totalmente nova. Vai fracassar.” Foi isso que as pessoas disseram do iPod (em 2001, antes do lançamento), e é isso que alguns céticos estão dizendo do Kindle, um leitor de livros eletrônicos (digitalizados) lançado esta semana pela Amazon.
Será que o Kindle vai seguir as pegadas do iPod e se tornar um “hit”, apesar do ceticismo geral? Assim como o iPod, o Kindle não é o primeiro em sua categoria, mas traz algumas novidades. Os livros digitalizados podem ser comprados por US$ 10 na loja online da Amazon, via uma conexão de telefone celular, sem necessidade de PC. O serviço sem fio é gratuito, mas os usuários têm a opção de pagar para assinar artigos de revista, jornal e conteúdos de blogs. Os críticos dizem que o design é esquisito, e resolve um problema que poucas pessoas têm: armazenar centenas de livros ao mesmo tempo (quem vai querer um e-livro no Natal?). Mas, lembre-se, as pessoas foram grosseiras e céticas sobre o iPod também.

Tradução livre de artigo da semana na The Economist.
Nota: Acho que consultor não pode ficar em cima do muro. Tem de ter opinião. Eu já enviei a minha para Época NEGÓCIOS. Sai na edição de janeiro de 2008, em minha coluna na revista.

02/12/2007

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Como Bill Gates virou Bill Gates (final)

A Microsoft não sabia quem seria o vencedor na guerra dos sistemas operacionais para PCs (não podia saber). Deixou abertas suas opções e fez, simultaneamente, seis apostas.
Primeiro, a Microsoft continuou investindo no MS-DOS. Embora todo mundo predissesse o fim dele, ainda tinha uma enorme base de usuários. Muitos clientes eram cautelosos quanto à mudança, e cada versão do DOS vinha com melhorias mais poderosas. O DOS continuaria a se metamorfosear e forneceria o que os clientes quisessem durante algum tempo ainda.
Em segundo lugar, a Microsoft via a IBM como verdadeira ameaça. Em 1987, a Big Blue ainda era muito respeitável em hardware, e queria recuperar o controle do mercado de sistemas operacionais. Mas a IBM também sabia que seria arriscado tentar sozinha. Fez como Michael Corleone disse em The Godfather: “Mantenha seus amigos perto, e seus inimigos mais perto ainda". Gates e a IBM aceitaram converter o projeto de sistema operacional OS/2 da IBM em um empreendimento conjunto.
Terceiro: a Microsoft viu o Unix como uma ameaça menor do que a IBM mas, ainda assim, uma ameaça. A Microsoft manteve discussões com várias empresas, inclusive a ATT, sobre participação em esforços conjuntos em Unix. As discussões mantiveram as opções da Microsoft abertas e a empresa manteve-se plugada numa tendência importante, o que também forneceu combustível à especulação sobre uma eventual estratégia Unix da Microsoft. Isto teve o benefício (para ela) de criar incerteza adicional nos apostadores no Unix, e reduzir a velocidade do seu progresso.
Quarto: além do jogo com a aliança Unix, a Microsoft comprou uma participação importante no maior vendedor de sistemas Unix para PC, uma empresa chamada Santa Cruz Operation. Assim, se o Unix realmente decolasse, a Microsoft teria pelo menos um produto exclusivamente seu no mercado.
Em quinto lugar, Gates não retrocedeu no investimento em aplicações. Continuou investindo nelas. Em especial, a Microsoft construiu uma forte posição em software para o Apple Macintosh, ultrapassando a própria Apple como fornecedor principal. Isso forneceu uma espécie de seguro para o caso de a Apple tentar aproveitar a descontinuidade no mercado, para forçar seu próprio sistema operacional.
Em sexto lugar, Gates fez investimentos pesados no Windows. O Windows, para ele, seria o melhor de todos os mundos. Foi construído em cima do DOS, e era compatível com o DOS “para trás”. Era multitarefas como OS/2 e Unix, e fácil de usar como o Macintosh. Mas o mais importante: mantinha o controle do mercado de sistemas operacionais para PCs firmemente nas mãos da Microsoft. O êxito com o Windows era claramente o resultado que a empresa mais desejava.
Gates não fez uma grande aposta focada, mas construiu uma cesta de opções estratégicas. Um modo de interpretar o que ele fez: ele partiu de uma aspiração de alto nível — ser a empresa líder em software para PCs — e então criou um portfólio de experimentos estratégicos que tinham a possibilidade de evoluir na direção daquele propósito.

Tradução livre de um trecho do livro The Origin of Wealth de Eric Beinhocker

01/12/2007

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Bill Gates não sabia que seria Bill Gates (I)
Em 1987, seis anos depois de Bill Gates ter assinado o contrato com a IBM que colocara a Microsoft no panorama da indústria de TI, a indústria de PCs (ainda nascente) acabava de atravessar um período de crescimento explosivo. Ninguém tirou partido desse crescimento com mais competência do que a Microsoft, mas o MS-DOS estava chegando ao fim do seu ciclo. Os clientes estavam começando a procurar um sistema que fosse bom em processamento gráfico e explorasse melhor a nova geração de microprocessadores. Ninguém sabia como as coisas iam se desenrolar. Apesar do seu êxito (com o MS-DOS), a Microsoft era ainda uma anã de us$ 346 milhões (em comparação com os gigantes de bilhões de dólares que cobiçavam, famintos, sua posição). A IBM desenvolvia sua própria solução; a ATT liderava um consórcio com outras empresas, incluindo SUN Microsystems e Xerox, para criar uma versão fácil de usar o sistema operacional Unix, muito admirado. A HP e a Digital Equipment Corporation promoviam sua própria versão do Unix. A Apple era uma ameaça, pois constantemente inovava mais rápido que o resto, e o seu Macintosh, altamente gráfico, vendia bem.
Podemos imaginar as opções que a Microsoft cogitou neste ponto.
Opção um: Gates faz uma "aposta tipo vida ou morte”, investindo na criação de um novo sistema operacional chamado Windows, e tenta migrar a sua base de usuários de DOS para o novo padrão, antes que um concorrente consiga massa crítica com o seu próprio sistema.
Opção dois: deixa a atividade “sistema operacional” para seus concorrentes maiores, melhor consolidados e, em vez disso, concentra-se em aplicações para as quais o pequeno tamanho e a agilidade da Microsoft poderiam ser mais vantajosos.
Ou, opção três: Gates vende a empresa ou junta-se a um dos seus concorrentes principais. Se a Microsoft perderia a independência com a opção três, esse movimento faria a vantagem pender para qualquer empresa com que ele decidisse se associar.
Todas essas opções implicariam em grandes comprometimentos, difíceis de reverter, e riscos enormes. Todo mundo pensa que Gates escolheu a opção um, e que a grande aposta da Microsoft no Windows deu certo, mas não foi bem assim. O que Gates e sua equipe fizeram foi muito mais interessante.....
(continua)

Tradução livre de um trecho de The Origin of Wealth, de Eric Beinhocker

29/11/2007

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As empresas falham feio é no comportamental, não no técnico.

A próxima Época NEGÓCIOS (nas bancas semana que vem) traz, como matéria principal, um tema eterno em gestão: Por que coisas ruins acontecem com boas empresas. Eu dei meu pitaco; tem uma contribuição minha lá. Não vou adiantar, mas garanto o seguinte: o maior problema, o fator que explica as derrocadas famosas, as débâcles mais assustadoras, as decadências mais desmoralizantes, NUNCA é incompetência técnica (em inovação, por exemplo, ou finanças, ou vendas etc...). É sempre comportamental. São vieses humanos que fazem com que certas decisões ou omissões sejam, simplesmente, suicidas. As evidências estão ali, claríssimas, cristalinas, mas são negadas. Esse tema me fascina. É por isso que existem tantos chefes (CEOs/executivos) mas tão poucos líderes de verdade. Pouquíssimos. Voltarei a isso (depois que a revista sair) aqui neste blog.

29/11/2007

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Blink é quase ruim (ou quase bom) (II)

Gostamos de admirar o talento e a sensibilidade dos que acertam por instinto, mas deveríamos deixar o instinto para lá, e usar metodologias baseadas em evidência. Como um médico faz. Como um engenheiro faz. Você entregaria sua saúde a um médico que propusesse tratamentos baseados em seu feeling? A julgar pelo sucesso dos livros que propõem soluções genéricas (independentemente das circunstâncias), grande parte dos executivos têm suas cabeças feitas por curandeiros e xamãs.
É exatamente por isso, também, que há tantos livros que propõem soluções opostas para o mesmo problema. Veja só:
Em Busca da Excelência - Lições das empresas mais bem administradas da América
O Mito da Excelência - Por que grandes empresas nunca tentam ser as melhores em tudo
Carisma - Sete pontos-chave para desenvolver o magnetismo que leva ao sucesso
Liderando silenciosamente - Um guia não ortodoxo para fazer a coisa certa
Liderando a Revolução - Como ter sucesso em tempos turbulentos fazendo da inovação um modo de vida
Gerenciando para o curto prazo - As novas regras para tocar uma empresa num mundo “dia-a-dia”
Amor é a opção “matadora” - Como se dar bem nos negócios e influenciar pessoas
Business é combate - Guia de um piloto de caças para vencer na guerra dos negócios
O reino que traz a paz - Construindo uma empresa sem feudos, facções, medos e outros temperos dos negócios de hoje
Capitalizando no Conflito - Estratégias e práticas para transformar conflito em sinergia nas organizações
Gerenciando por meio de medições - Como melhorar a performance de sua empresa por meio de benchmarking efetivo
Gerenciando com paixão - Fazendo o máximo de seu trabalho e de sua vida
A busca do poder autêntico - Livrando-se da manipulação, controles e crenças autolimitantes
O que Maquiavel faria? Os fins justificam a maldade (The ends justify the meanness)
Pensando dentro da caixa - As 12 leis eternas para gerenciar negócios de sucesso
Fora da caixa - Estratégias para conseguir lucro hoje e crescimento amanhã por meio de serviços na web
Feitas para durar - Hábitos de sucesso das empresas visionárias
Fracasso corporativo by design - Por que as organizações são feitas para falhar
do livro: Hard Facts-Dangerous Half-Truths & Total Nonsense de Jeffrey Pfeffer e Robert Sutton-Harvard Businesse School Press 2006)


28/11/2007

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Paulo Coelho,o “viés do sobrevivente”, e a lei dos grandes números

O “viés do sobrevivente” a que me referi no post abaixo, explica por que os famosos e milionários adoram aquela frase que se tornou o ícone supremo do “paulocoelhismo”: “Se você deseja algo, o Universo inteiro conspira a seu favor”. Não admira que pessoas bem-sucedidas acreditem nisso. Elas são bem-sucedidas, e isso seria a prova de que o Universo conspirou a favor delas. Puro viés do sobrevivente.
Famosos e milionários são a minoria esmagadora. São os pontos fora da curva. São o análogo estatístico ao fumante inveterado que está com 90, fuma desbragadamente desde os 10 e não ficou doente. O que dizer dos milhões e milhões de leitores “médios” de Paulo Coelho (PC), que não são e jamais serão famosos, independentemente da intensidade com que desejem sê-lo?
Esses, acreditando no que dizem as celebridades, continuarão comprando livros de PC e desejando, desejando, desejando, cada vez mais intensamente. Até morrerem explodindo de desejo! Totalmente anônimos ante a indiferença glacial do Universo!!! É que o Universo está ocupado demais “conspirando” a favor de Brad Pitt, Sharon Stone e Madonna, entende?
Quando afirmo que para os fins da gestão não pode haver pessoas especiais, estou lançando mão da lei dos grandes números. Na média, as pessoas são médias, e carregam, como eu e você, a herança primata da busca da reciprocidade, a obsessão com a justiça, o desejo de vingança por se sentirem enganadas, a busca de status e poder... paixões shakespearianas. Pense nisso.
Para prever os efeitos de nossas ações como gestores, temos de partir do comportamento médio, não do desvio estatístico. Eis outro problema da mentalidade auto-ajuda: dando a entender que todo mundo pode ser Bill Gates se “desejar com intensidade suficiente”, ela engana você. Você pode ser Bill Gates, mas provavelmente não será. A média das pessoas fica na média.
O que a lei dos grandes números diz é que não há chance de os milhões de leitores do Paulo Coelho passarem a se tornar celebridades porque sonharam, ou por qualquer outra razão. O Universo só conspira a favor de quem tem algo para vender e encontra quem compre.


26/11/2007

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