Clemente Nobrega, pesquisador de gestão e estratégia, autor de Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?, entre outros livros, e do site clementenobrega. com.br.

 
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Católicos X Evangélicos - a guerra (nada santa) por market-share II
As perspectivas de crescimento, geração de caixa e participação de mercado da igreja católica são péssimas. Não se sabe ao certo a receita ($$) da igreja católica, mas sabe-se que as regiões ricas do mundo (EUA + Europa) subsidiam as mais pobres. Olha o problema: o catolicismo nas regiões ricas - as que bancam - tem uma taxa de crescimento desprezível (menos de 1% ao ano). Além disso, as finanças têm sangrado por causa de multas por desvios de conduta, tipo abuso sexual. O quadro é ruim. Onde o catolicismo é maior (África e América Latina), faltam padres e falta dinheiro. A igreja africana é grande, mas pouco ativa quanto aos problemas da região (aids, por exemplo). Está “longe do cliente”, e isso é mortal em marketing (ver adiante). Na Ásia (mercado enorme), há concorrência de grupos fundamentalistas islâmicos. Na América Latina, aumenta a cada dia a concorrência de grupos evangélicos diversos. Tá ruim, né?
Canal de distribuição - falta de padres
Se uma igreja é uma organização que vive de sua capacidade de criar apelos que sensibilizem seus potenciais consumidores, ela tem de fazer marketing. Todo mundo que tem de “vender” algo tem de fazer marketing. Marketing não é opcional num mercado competitivo. Todos sabemos que a disciplina do marketing se define por atividades relacionadas a quatro coisas básicas:
a - ao “produto” que se tem para vender;
b - à forma de vender e entregar (canal de distribuição);
c - ao preço que se paga pelo produto (relacionado ao “custo” que as pessoas têm para adotar o produto);
d - à promoção desse produto (propaganda, comunicação com o mercado, forma pela qual a informação sobre o produto chega ao mercado).
Uma olhada rápida mostra que a igreja católica tem problemas em todos os itens, em relação a seus competidores. Veja os padres, por exemplo. Eles são os canais de distribuição da igreja católica. A América Latina tem um padre para 7 mil católicos. Nos EUA e na Europa, a idade média dos padres é 60 anos, e não há renovação. É possível construir relações pessoais assim? Não, não é. Possível solução: a ordenação de homens casados como padres, mas isso iria contra a tradição católica. Prevejo que vai acabar sendo feito. Não sei quando, mas vai.
(Continua no próximo post quando eu tiver tempo, mas ainda hoje.)

15/01/2008

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Católicos X Evangélicos: a guerra (nada santa) por “market-share” I
Existe um mercado para uma coisa (qualquer coisa!) quando há gente querendo essa coisa e alguém a oferecendo. Mercados tradicionais, como o mercado eleitoral, por exemplo, vêm sendo crescentemente povoados por técnicas de marketing de massas, com políticos tentando fazer-se escolher nas urnas, e isso não é de hoje (eu quase disse: “com políticos se vendendo”, mas ia pegar mal...). Mercados que sempre existiram ganham dinâmica nova com a globalização. Por exemplo: há um mercado para enterros (serviços funerários) que tende a ser dominado por organizações bem mais profissionais do que as existentes quando o “negócio” era apenas local. Há um mercado para sexo e pornografia globais que pode ser estudado e entendido (por sinal, um mercado exuberante, que está crescendo e segmentando-se). Um dos mercados mais interessantes é o das religiões. A briga por “market-share” entre a religião católica e várias outras pelo mundo merece ser analisada do ponto de vista da “gestão”.
Nos EUA e na América Latina, igrejas evangélicas - focadas em necessidades específicas de segmentos bem definidos do mercado de crentes - têm mais chance de sucesso a curto prazo, a menos que a igreja católica mude muito e mude rapidamente, o que não é provável. Com as evangélicas dando show de marketing e muito mais sensíveis aos princípios da minha pragmática ciência da gestão, a igreja católica vai ser forçada a mudar. Ou isso ou a irrelevância. Volto já.

15/01/2008

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Sucesso tem a ver com mérito?(II)
Repare no contorcionismo verbal do pessoal que faz marketing político justificando seu trabalho para este ou aquele candidato: hoje eu faço campanha para, digamos, um Paulo Maluf, e garanto (juro! juro!) que só o faço porque, para mim, ele é REALMENTE o melhor. Amanhã, um outro candidato oferece mais, e lá vou eu explicar que, agora, é esse outro que é REALMENTE o melhor, por isso eu mudei. Não seria mais sincero e direto dizer: “mudei porque me ofereceram mais$$$$”? E as justificativas ridículas das jovens (e não tão jovens) atrizes para posarem nuas (mérito artístico, claro): “poso nua porque são fotos artísticas e de bom gosto”. Ah sei, então é por mérito artístico que o borracheiro da esquina tem aqueles recortes de fotos de genitálias, peitos e bundas expostos em sua parede, certo? Não seria mais sincero dizer: “poso nua porque me pagam bem”?
Por que algo faz sucesso se não é necessariamente por mérito? A resposta certa (apesar de parecer tola) é: faz sucesso porque é bom em fazer sucesso, pode ter mérito, pode não ter. É o mercado que decide (obviamente, com isso, não estou dizendo que valha tudo para vender. Nem vou explicar que não estou, e espero que isto esteja claro).
Repare a democracia: o sistema eleitoral democrático - (cheio de imperfeições, mas o melhor que existe) - não fala em mérito. Ele apenas define uma regra operacional: “o candidato que tem mais votos é o eleito”. Mas será que o que tem mais votos é o que tem mais mérito? Não sei. Ninguém tem como saber. Mérito tem o que a maioria diz que tem. Ponto. A mesma coisa ocorre em ciência: quem decide se uma idéia é científica? É o consenso da opinião informada sobre o tema em questão. Em ciência isto é mais fácil, porque os critérios são pragmáticos: funciona ou não funciona. Antibióticos eliminam bactérias. E=mc2 etc... Essas coisas são ciência porque geram efeitos concretos no mundo real e, então, o consenso (informado) as adota.
Em outras instâncias, fora da ciência, quem tem de decidir somos nós, individualmente: eu, você, a multidão. Ou seja: esse agregado de individualidades a que chamam “o mercado”. Não interessa se eu leio Paulo Coelho, se recomendo Paulo Coelho, se gosto de Paulo Coelho, se, para mim, Paulo Coelho tem mérito. Para mim, interessado em marketing, seu mérito é a habilidade de se fazer comprar por milhões de pessoas. Todas as considerações sobre outros “méritos” que ele possa ter são subjetivas, filosóficas demais, pessoais demais, inúteis do ponto de vista do marketing.
Para ilustrar isso, convido vocês a estudarem comigo um caso de marketing muito atual que está rolando aí: a batalha por market-share entre a igreja católica e a evangélica. Eu, pessoalmente, não sou nem católico nem evangélico; não “recomendo” nenhuma religião porque, segundo meus critérios pessoais (desimportantes, em termos de marketing), nenhuma tem qualquer “mérito”. Posso, porém, avaliar a competição entre as religiões usando princípios gerais de marketing e chegar a um diagnóstico bem preciso (eu acho). Vamos combinar: não me pergunte qual religião eu acho que tem mais mérito, pergunte-me qual vai ganhar. Resposta e justificativa nos posts desta semana.

14/01/2008

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Próximos posts na semana 14-18 de janeiro
- Os quatro vieses que ficaram faltando. São cinco, tratei apenas de um (“viés do otimismo exagerado”, ver abaixo). Farei um post para cada um dos outros quatro. Ênfase para o meu preferido - o “viés do sobrevivente” - base para dez entre dez livros de auto-ajuda empresarial. Uma furada, mas ninguém nota.
-Um grande case de marketing em andamento-A luta por market-share entre católicos e evangélicos no mercado de crentes. -Três livros que recomendo, comentados criticamente: A Disciplina dos Líderes de Mercado, A Estratégia do Oceano Azul e Freakonomics.

13/01/2008

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Duas notícias da semana passada têm a ver com teorias da inovação
1- A Tata Motors apresentou um carro de US$ 2,5 mil na Índia. Exemplo perfeito de inovação disruptiva (segundo a terminologia de Clayton Christensen): uma oferta que – segundo os padrões normais - é “pior” do que as existentes, mas que possibilita que uma massa enorme de pessoas (Índia, China.. ) passe a ter carro. A opção para essas pessoas é “ou isso, ou ande a pé” (ou continuem a andar em scooters que acomodam até quatro pessoas de uma mesma família, à acrobatas do Cirque du Soleil). As empresas estabelecidas têm pouca motivação para entrar nisso, porque as margens ($$) que um produto barato assim proporcionam não são atraentes para elas. Christensen descobriu que muitas inovações que começam assim, por baixo, acabam, com o tempo, tornando-se atraentes para camadas mais exigentes de usuários, e aí, as empresas estabelecidas passam a ser ameaçadas, mesmo com seus produtos “melhores”. Inovações disruptivas têm sido uma fonte enorme de desenvolvimento e progresso econômico.
2- A ANS – Agência Nacional de Saúde - quer que as operadoras de saúde passem a oferecer uma série de novos serviços e procedimentos sem cobrar nada a mais por eles. Vai dar errado. Ou as operadoras não vão oferecer essas coisas, ou vão cobrar. Fala Milton Friedman: “não existe almoço grátis”, né? Alguém vai ter de pagar. A ANS, tentando “jogar para a platéia” assim, atrapalha a evolução do sistema de saúde no Brasil. Entre as medidas que ela deveria tomar, está o incentivo de inovações disruptivas em saúde, à carros de US$ 2,5 mil -: produtos bons, mas sem a pompa das ofertas usuais. Não venha me dizer que “saúde é diferente” (não é não, é igualzinho). Isso permitiria um serviço melhor a amplas camadas da população.Não há razão, por exemplo, para que seja um médico (cheio de diplomas e especializações), que tenha de diagnosticar e tratar de dor de ouvido ou diarréia de criança;uma enfermeira ou para-médico poderia fazê-lo,mas e a reação da “corporação médica”? E a sacralidade da “autoridade médica”? Como não tem apetite para as brigas que valem a pena brigar, a ANS prefere fazer média.

13/01/2008

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Sucesso tem a ver com mérito?
Algumas opiniões mais polêmicas e incisivas sobre minha última coluna na Época Negócios, têm a ver com um erro muito comum: achar que sucesso tem a ver com mérito. Tecnicamente, sucesso em marketing nada tem a ver com mérito. Sucesso é apenas ser adotado/comprado/votado/escolhido... por muita gente. Mais nada. É por isso que é tão fácil manipular em marketing.
-Existem milhões de coisas/idéias/políticos/produtos etc.. que fazem sucesso (porque são escolhidos) e não têm mérito intrínseco algum.Além do mais, ninguém consegue, em geral, definir o que é mérito. Shakespeare tem mérito, sem dúvida. Machado de Assis tem, Michael Schumacher tem, Muhamed Ali tinha,Mike Tyson tem? E o Maguilla?Xitaozinho e Xororó, talvez. Paulo Coelho tem? George Bush? Michael Jackson...? Deixa pra lá. O MacIntosh da Apple tem um mérito danado, mas perde de goleada para os PCs Windows.Qual o mérito da Coca-Cola, a marca mais valiosa do mundo? E o do Marlboro, a marca de cigarro idem. E aquele craque que tinha tudo para ser um Pelé, mas não deu em nada?O cantor “mais afinado que o Frank Sinatra”, mas que acabou no Irajá?- talvez tivessem mérito, mas são perdedores. E o contrário? E essa montanha de lixo que faz sucesso na TV? E o mundo cão, a apelação rasteira, a pornografia idem? E o político estúpido, ladrão, e campeão de votos? Mérito? Não brinquem comigo!

12/01/2008

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Sucesso no mundo da empresa (assim como no da ciência)...
exige que tenhamos nosso natural egocentrismo sob controle. Exige que conheçamos nossos viéses e partamos deles no desenho da gestão.Quem conhece uma empresa moderna sabe que a luta pelo poder lá dentro, ambição, desejo de crescer e controlar uma grande corporação, condiciona a vida das pessoas. Mas o que traz sucesso não é isso.
Também não tem nada a ver com essa baboseira de “deseje intensamente que o universo conspirará a seu favor”-100% pensamento mágico, egocêntrico. Nada a ver com a mentalidade gestão. O economista Paul Seabright diz:
“... [todos conhecemos] a sede dos executivos para chegarem a postos de comando e as explosões de ressentimento por terem que se submeter ao comando de outros. Colaboradores mais jovens às vezes têm de passar por uma espécie de “adolescência prolongada” tendo de viver em contínua deferência a seus chefes.. Há ampla evidência de que decisões importantíssimas -como a de comprar uma empresa.. , são, frequentemente, tomadas com base em ambição, vaidade, desejo de poder, desejo de dirigir uma empresa maior... Nada disso pode surpreender a quem esteja familiarizado com a matéria prima da natureza humana.. mas nada disso também importa muito, porque apesar de nossas emoções serem o que está recitando as falas, são forças econômicas maiores que escrevem o script. Realmente,ambição, vaidade, desejo de poder,sempre foram um motivador importante a mover o homem na tentativa de conquista de seu ambiente natural.P orem, essa tentativa de conquista frequentemente foi mal sucedida. Aqueles que foram bem sucedidos não foram os mais maliciosos, nem os mais vaidosos ou desejosos de poder... Quem foi bem sucedido sempre adaptou essas motivações às possibilidades do ambiente, e esse ambiente inclui o ambiente criado pelas motivações de outras pessoas.É a mesma coisa no mundo empresarial. Não é o desejo de dirigir uma grande corporação que torna você capaz de fazê-lo. Não é a sede de comprar uma empresa competidora, ou de diversificar sua estratégia entrando em outros mercados, que faz isso ser possível. Como na natureza, as estratégia têm de se adequar às possibilidades que o ambiente apresenta.”
Portanto leitor, esqueça esse negócio de “se você pode sonhar você pode fazer”. Isso é pensamento "mágico",em gestão não tem nada a ver. O universo não estará nem aí para seus sonhos se eles não se adequarem a uma oportunidade real no ambiente.

12/01/2008

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Como a ciência dá certo apesar do cientista?
Carl Sagan explica: por meio de um protocolo que detecta e bloqueia automaticamente os viéses do cientista, sem que nenhuma autoridade-sem que ninguém “especial”-precise fazer nada. A ciência é importante, o cientista não.
Se você acha que tem algo a declarar em ciência, prepare-se para ser impiedosamente investigado. Não importa se você se chama Albert Einstein ou Isaac Newton.
No exame oral para a obtenção de um título de PhD, o pobre diabo que está defendendo a tese é bombardeado por perguntas especificamente formuladas para revelar furos no que ele está apresentando.
Carl Sagan: ”os encontros científicos vivem cheios de disputa. Há reuniões científicas em que o conferencista mal falou trinta segundos, e lá vêm comentários e perguntas devastadoras da platéia”.Tente publicar algum trabalho numa revista científica de primeira linha. Se chegar a tomar conhecimento dele, o editor vai mandá-lo para juízes anônimos que têm a única obrigação de passar um pente fino no que você fez ,procurando deliberadamente furos e inconsistências.
É tudo anônimo. O autor não sabe quem é que está criticando seu trabalho.
Ninguém gosta disso, claro, mas esse é o método que a ciência tem para bloquear a alta conta em que todos nos temos. Não adianta dizer: “eu sinto que meus resultados são consistentes, por que vocês recusaram meu trabalho?”. Ou: “olhem minha história, meu passado, vocês têm de me dar um crédito de confiança. Acreditem em mim”.
Nada feito. A ciência não dá a menor bola para o cientista.
O método da ciência parte da constatação de que somos imperfeitos, cheios de viéses. Vivemos tendo “sentimentos” e “intuições”. Achamos que temos uma conexão especial com o universo. A ciência sabe que somos assim por natureza, não por “maldade”, mas não permite que nossos viéses dirijam o espetáculo. A regra, dura, mas justa, é: funciona?
Se não funciona tem que ser descartado. Como Carl Sagan continua a nos lembrar, os prêmios mais valorizados da ciência são frequentemente concedidos àqueles que convincentemente refutam crenças estabelecidas.
A ciência sempre desvenda a fraude por que a correção do erro está embutida no seu método.
Eu nunca vi um líder religioso admitir que algo em sua crença possa estar errado. Sagan pergunta:
.... ”que líderes dos principais credos reconhecem que suas crenças talvez estejam incompletas e criam procedimentos para revelar possíveis deficiências doutrinárias? Que prêmios os céticos religiosos ganham das religiões estabelecidas?”O mercado da ciência-com seus revisores independentes, seu ceticismo, sua exigência de evidências, seu rigor impessoal-acaba sempre detectando a fraude ou o erro.
Pense nisso. A ciência é mais importante que o cientista

11/01/2008

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Os 5 viéses que humilham os gestores (I)
E não só os gestores não, esses-(principalmente os de muito sucesso)- são apenas os mais ridicularizáveis.
Viés do otimismo
Executivos tendem a serem superotimistas em relação ao sucesso das iniciativas que tomam e, portanto, em relação à sua habilidade como gestores. ”Médios são os outros”, eles são o máximo. Isso é comum entre cientistas também-(parece que tem a ver com personalidades que se expõe publicamente em função de resultados que prometem). Aliás, cuidado com cientistas. Eles são um perigo (como humanos, são totalmente enrolados pelos vieses conhecidos). Ainda bem que a ciência os enquadra. A ciência é melhor que o cientista.

11/01/2008

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Vieses que nos arruínam - por que gestão não pode ser baseada em intuição
Um psicólogo famoso - Jean Piaget - mostrou que nossa visão intuitiva do mundo é essencialmente egocêntrica - não é natural para nós aceitarmos que exista um mundo separado da gente. Suspeito que essa tendência moderna a misticimos, auto-ajudas, anjos-da-guarda-pessoais, vibrações cósmicas e que tais é parte dessa mesma coisa.
Sentimos-nos naturalmente ligados a forças supranaturais que fariam o mundo mover-se de acordo com nossos desejos e interesses! (Na verdade, a turma paulocoelhista é um pouquinho mais ambiciosa: não é só o mundo que se comportaria assim, não, é o universo inteiro!).
É essa a razão pela qual, mesmo aquelas pessoas que vencem na vida por pura sorte, sempre acham que mereceram aquilo. O cosmos estaria apenas prestando homenagem às qualidades intrínsecas que elas possuiriam. Por isso (egocentrismo), também é fácil entender por que a ciência não é muito popular.
Humanos, afinal, adoram acreditar em espíritos e deuses, mas a ciência exige que eles vejam as coisas como elas são, não como eles sentem que são, ou gostariam que fossem. As várias formas de ocultismos são “divertidas”; grande parte dos paranormais e gurus de vários matizes (incluindo a gurulândia motivacional, a turma que canta I'll Survive em palestras para empresas, lembra?) são entretainers, engraçados, espetaculosos. Um cético racional é, normalmente, considerado chato.
A popularidade do “oculto” e do mágico vem da profunda necessidade egocêntrica de acreditarmos que estamos ligados ao mundo lá fora de um modo pessoal. O viés “sou um predestinado”, tão comum, reflete isso perfeitamente.
“Muita gente que até entende a parte técnica da ciência ainda assim recusa-se a admitir que ela proíba o subjetivo... há muita gente intelectualmente bem formada que gostaria que a ciência se tornasse algo mais intuitivo, subjetivo, direto. Algo que admitisse que o conhecimento possa ser obtido com base em intuição ou sensibilidade, algo em que o egocentrismo ainda representasse um papel. Isso, apesar dos enormes triunfos da ciência, é mais uma prova de que pensar objetivamente não é uma coisa natural para os humanos. Talvez tenhamos chegado à ciência por pura sorte... em toda sociedade, quem é cético tem muita chance de ouvir um “cala a boca”, ou até de ser apedrejado pela massa de crentes... Todos os sistemas não científicos aceitam a intuição, ou insight pessoal, como fonte válida de conhecimento. A ciência, não”.

10/01/2008

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Segmentação por circunstância - o que é isso mesmo?
Para contribuir para o debate gerado pela minha última coluna em Época NEGÓCIOS, e inspirado pelos comentários nos dois últimos posts, leia
Segmentando seu mercado.doc, um texto de meu livro A Ciência da Gestão que explica tudo direitinho. Aprendi esse conceito no livro The Innovator's Solution, de Clayton Christensen, meu mentor para assuntos de inovação e marketing.

09/01/2008

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Comentários sobre minha coluna em Época NEGÓCIOS
Obrigado ao pessoal que está comentando o post aí em baixo. Agora, notem o seguinte: meu ponto central é sobre a segmentação do tal mercado de 65 milhões de títulos publicados. Procurei mostrar que aquilo que nós estudamos em cursos de marketing – segmentação por atributo – não serve para nada nesse caso das leitoras digitais. O que conta não são as características (atributos) de quem “compra livros”: gosto literário, sexo, idade, faixa de renda, escolaridade..., mas, sim, o que essas pessoas estão querendo fazer em cada circunstância específica que vivem em seu dia-a-dia. A mesma pessoa quer um livro de papel para levar para a praia, a banheira (ou o banheiro), mas compra uma leitora digital para consultar dicionários, catálogos, cotações, notícias etc..
Segmentar por circunstância é difícil, porque implica em entendermos a motivação profunda de quem compra (o que ela está querendo, sentindo) numa situação específica de seu cotidiano. Não aprendemos a interpretar motivações circunstanciais em cursos de marketing.

08/01/2008

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Minha coluna em Época NEGÓCIOS este mês - a leitora digital vai matar o livro?
Parada (rápida) com os temas que estou tratando. A coluna começa assim:
"Google, Amazon, Microsoft, Yahoo!, e mais todas as grandes editoras, estão digitalizando livros. Pelo pedigree dos envolvidos, não há dúvida: apostam que esse objeto - na essência, ainda um produto medieval - vai mudar. A líder no esforço é o Google - 10 milhões de títulos digitalizados por ano. A Amazon acaba de lançar o Kindle - aparelho que baixa conteúdos digitalizados direto, sem precisar de um PC. Você pode carregar centenas de livros no aparelhinho, e ler onde quiser. A aposta é que o Kindle vai se transformar no iPod dos livros. Estima-se que haja cerca de 65 milhões de títulos no mundo. Vai dar certo? Bem, ninguém me perguntou. Se perguntasse, eu diria o seguinte...."
Leia na revista ou
AQUI em meu site

07/01/2008

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Ciência só funciona porque “enquadra” o cientista
Damos valor ao que é “científico” porque sabemos que a disciplina de sua profissão obriga o cientista a trabalhar seguindo protocolos que impedem que seus vieses e emocionalismos contaminem seus resultados. É isso o que defendo para a gestão.
Ciência inegavelmente funciona - naquele sentido pragmático em que estou usando esse termo: gera resultados concretos no mundo real. E ela só funciona porque nunca confia a priori no cientista. Cientistas, como indivíduos, não são confiáveis (não é maldade, são vieses). Pessoas, em geral, não são. Ser cientista não torna ninguém nem um pouquinho melhor.
A história da ciência está cheia disso. Em meu site há um pequeno resumo da história da “fusão fria” de 1992: dois cientistas proclamaram ao mundo que tinham obtido um resultado revolucionário, mas eles tinham passado por cima dos protocolos da ciência e foram rapidamente desmascarados.
A objetividade do olhar científico é totalmente antinatural, mas, pensando bem, como diz Alan Cromer no brilhante livro Uncommon Sense - a monogamia, a honestidade, o governo democrático também são antinaturais.
“Nossa espécie foi moldada a partir de material muito ruinzinho. Nossa única glória é que, de vez em quando, nós vamos contra nossa natureza egocêntrica e conseguimos forjar uma visão mais elevada do mundo.”
Egocentrismo significa que achamos que o mundo “lá fora” é, de alguma maneira, uma extensão do nosso eu “aqui dentro”. Acho que Kahneman concordaria; muitos vieses que ele identificou têm a ver com essa inabilidade natural que temos de olhar o mundo objetivamente.

07/01/2008

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No espírito do que temos visto, e inspirado pela Veja desta semana
Cuidado com as receitas dos livros de auto-ajuda! A única coisa certa sobre eles é que ajudam muito ($$) a seus autores. Mesmo os que não são escritos por picaretas valem pouco, e a razão é simples: só registramos conselhos e recomendações de forma superficial, e por períodos muito curtos. Não adianta apresentar argumentos apenas racionais para “nos tornarmos vencedores”; só somos racionais em circunstâncias muito específicas em nossas vidas. No resto do tempo, operamos no piloto automático do sistema 1.

06/01/2008

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Ainda o "idiota racional" - talvez em nenhum outro contexto profissional...
... a ação ponderada, racional, esteja mais ausente do que no mundo da gestão, ainda que se diga o contrário.
Principalmente (e não por acaso) nessa área que chamamos de gestão de pessoas. E não está presente porque não pode estar presente se não a colocamos deliberadamente lá, pois, de forma natural, ela não vem. Naturalmente somos puro “sistema 1”. Só somos “sistema 2” quando enquadrados pelo contexto profissional: imagine um cirurgião comandado pelo sistema 1 durante a cirurgia, ou um bombeiro durante o incêndio, ou o dentista enquanto trata seu canal. Não dá, né?
Há contextos (que não o da decisão sob risco) em que não tem cabimento querer “pensar direito”. Você pode ser ateu (sistema 2) e se sentir arrebatado pelo canto gregoriano, ou pela beleza de uma catedral (sistema 1). Estética não tem nada a ver com racionalidade, mas não é disso que estamos falando aqui. Estamos falando de gestão.
Tudo o que tem a ver com gestão tem a ver com a montagem cuidadosa de sistemas que contornem as armadilhas emocionais, pré-históricas, que trazemos programadas em nós. Nunca (jamais!) devemos tentar extirpá-las, pois, se conseguirmos, nos transformaremos em “idiotas racionais”.


06/01/2008

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Antes de prosseguir
Eu já devia ter avisado, mas esqueci. Leitores de meu livro Empresa de Sucesso, Pessoas Infelizes? notarão que os últimos posts reproduzem trechos do livro (com pequenas adaptações). Curioso. No formato mais blogueiro, as mesmas idéias têm repercutido mais do que no livro. Vou seguir ainda um pouco com elas.

06/01/2008

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