Clemente Nobrega, pesquisador de gestão e estratégia, autor de Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?, entre outros livros, e do site clementenobrega. com.br.

 
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O Google e o viés do sobrevivente
O Google é o atual queridinho da gurulândia. O método dos gurus, em geral, é grotesco: uma empresa começa a fazer sucesso, eles correm para encaixar uma história que o explique, e passam a nos exortar a agir como a tal empresa. As conseqüências disso, às vezes, são horripilantes, mas como ninguém chama os gurus às falas, eles continuam a nos enrolar.
Dois exemplinhos. Quase todas as empresas apontadas como modelos por Tom Peters e Bob Waterman em seu clássico Em Busca da Excelência (1982, eu acho) foram para o buraco logo depois. A estrela principal, IBM, quase quebrou. Gary Hamel badalou a Enron exaustivamente. Badalou, badalou, até que se descobriu que a empresa era uma fraude. E Hamel não aprende: agora está dizendo que o Google é que vai definir os paradigmas (arghhh...) da gestão no século 21. Há alguma coisa de muito errada em se usar histórias de quem faz sucesso como exemplos para quem quer fazer sucesso. Muito, muito errada.
Em ambientes carregados de incerteza, sucesso PODE vir por pura sorte. Você leu direito, sorte. Não estou dizendo que seja sempre sorte, não estou dizendo que os protagonistas não tenham talento, estou dizendo que não se pode eliminar o acaso, a sorte, como “causa” do sucesso.
O método dos gurus é infantil. Eles exploram uma distorção cognitiva nossa (hummm...), um viés chamado “viés do sobrevivente” (survival bias). É o seguinte: quando queremos entender, por exemplo, o que faz alguém ficar rico, nós estudamos quem? Os ricos.
Mas os ricos são uma amostra viciada, pois são os sobreviventes, os que sobraram, de uma população muito maior que não ficou rica. Quem não ficou rico saiu da amostra. Nós os ignoramos porque não os vemos. Os que sobrevivem têm sempre o viés de racionalizar as causas de seu sucesso contando uma história épica (e quase sempre falsa) para explicá-lo, mas é muito razoável perguntar o seguinte (e nós devemos fazê-lo sempre, por ser um hábito muito saudável): quem perdeu não teria perdido por azar? Você, que ganhou, não teria sido por sorte? Pode ter sido ou não, mas, em geral, não se pode dispensar o papel do acaso nos resultados que se obtêm, dentro ou fora da empresa. Veja por que (continua)


04/02/2008

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O Google é o alvo
Todo mundo sabe que o alvo da Microsoft com essa oferta bilionária pelo Yahoo é o Google. O Google chegou a uma massa crítica tal, que seu sucesso se auto-reforça e tende a tornar a empresa inexpugnável. Eles tiram partido de qualquer “clique” que alguém dá num link na Internet, para ganhar dinheiro via propaganda (o Google é uma agência de propaganda disfarçado de mecanismo de busca).Realmente é genial,mas não foi antevisto,nem projetado para ser assim,foi sorte.Uma idéia técnica para melhorar um produto já existente(search engines), acabou,para surpresa geral, praticamente blindando o Google da competição .A Microsoft já percebeu que se não fizer um movimento radical agora,logo vai perder sua posição atual em software.Ela quer o Yahoo para adquirir musculatura nova e ,juntos,tentarem enfrentar a fera.O Google ameaça todo mundo que cobra por conteúdo digital,pois seu negócio é dar de graça esses conteúdos e ganhar(muito) com propaganda.
Vou explicar melhor essas coisas na minha coluna para a Época Negócios que sai no início de Março (não agora em fevereiro, daqui ha um mês), mas quero tratar aqui de um aspecto essencial dessa e de muitas outras inovações geniais (talvez a maioria delas). Sorte. O papel do acaso no sucesso do que faz sucesso.

03/02/2008

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Duas maneiras de olharmos para a matéria-prima do trabalho de um gestor: as tais “pessoas”....
...(que também atendem pelo vulgo “ser humano”). Cito o excelente Nassim Taleb:
“Por um lado, há a visão utópica representada por aquela sua tia que nunca se casou e que fica fazendo sermões moralizantes. Seu guru preferido também está nesse grupo (aquele do “como-ficar-rico-em-vinte-passos”, ou “como-tornar-se-uma-pessoa-melhor-em-três-semanas”).
Essa visão está associada a filósofos como Condorcet, Rousseau e Thomas Paine. Esse pessoal acredita que podemos controlar nossa natureza por desejarmos fazê-lo, ou por sabermos racionalmente que é melhor fazê-lo, obtendo assim felicidade via racionalidade.
Por outro lado, existe a chamada visão trágica da espécie humana (nota minha: eu preferiria chamá-la de visão naturalista), que acredita em limitações e falhas inerentes à nossa maneira de pensar e agir, e requer um reconhecimento deste fato como base para a ação individual e coletiva. Entre os proponentes disso estão Milton Friedman, Adam Smith, Herbert Simon, Karl Popper, Amos Tversky e Daniel Kahneman...”.

Humildemente, me incluo nessa segunda turma também.

02/02/2008

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Da ministra que caiu ontem (tchau Matilde!):
“o desafio mais forte é o "convencimento" da sociedade da necessidade de superar o racismo, tendo como um dos principais caminhos as ações afirmativas como, por exemplo, as cotas nas universidades”
Só para quem leu os últimos posts: neste trecho da fala de despedida da ministra dos cartões (coitada, né?) há dois erros em três linhas.
O objetivo é superar o racismo?Então a senhora acha que isso se dará pelo “convencimento” da sociedade? Caso existisse esse racismo que a senhora queria combater (para mim,não existe),ele não seria superado por “convencimento” mas por auto-interesse da sociedade. Não tem de convencer ninguém. Os negros têm é que se qualificar e deixar que as evidências falem por si mesmas. Eles passarão a ser mais representados quando forem mais representativos do tipo de inteligência e competência que a sociedade julga mais relevante (não é jogo de palavras, leiam de novo).Quando forem representativos disso,a sociedade os escolherá automaticamente.Ou seja, quando pararem de choramingar e passarem a buscar qualificação para competir e ganhar por mérito,sem cotas e sem favores. Por mim podiam aproveitar a saída da “ministra dos cartões” e fechar esse ministério. Sua missão (razão de existir) não tem sentido, pois não há nenhuma força na sociedade bloqueando o acesso dos negros a nada por serem negros.

02/02/2008

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Ainda na linha “é assim que se muda o mundo,por que não fazem”?
Seria facílimo AGIR para resolver certas coisas, se elas fossem desideologizadas (arghh..). Gestão vai direto no que fazer para atingir certo objetivo.
Violência e crime.
Leio numa entrevista (já velhusca-O Globo de 4.11.2007) a opinião de Aloísio Araújo um respeitado pesquisador com cabeça de cientista:”o crime pode ser desestimulado se o retorno esperado pelo potencial ganho do criminoso for inferior às chances de ele ser apanhado e sofrer punição severa”. Se prender mais,vão matar menos. Isso é pura ciência econômica, não é nada novo. É quase uma questão de bom senso e
seria uma excelente diretriz estratégica para nortear ações que levassem a redução da criminalidade. Por que não fazem?
Educação
Leio numa revista do Valor Econômico (início de novembro de 2007): ”Governo de São Paulo começa pela educação, a gestão de eficiência no setor público”. Sabe o que é isso? Metas, acompanhamento da performance por meio de indicadores, meritocracia, remuneração por resultado não por tempo de casa etc. Alguém pode ser contra? Claro que pode.Tem um monte de gente contra porque a idéia é “neoliberal”.Os sindicatos de professores não querem “nem discutir o projeto de remuneração por mérito” porque é baseado na competição(Marx ,certamente ,não aprovaria).Ideologia trabalha contra a obtenção de resultados.

01/02/2008

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Problemas no Blog
Pessoal, me enrolei por aqui e fiz sumir pelo menos um comentário ao post aí de baixo. Peço desculpas ao leitor que postou. Se der para postar de novo, prometo responder logo.Os deuses da blogosfera punem os blogueiros que não respondem logo aos seus leitores. Prometo me emendar.

31/01/2008

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A coluna de Carlos Alberto Sardenberg hoje em O Globo começa assim:
“O motorista vai pegar a estrada e, assim, dispensa o copo de vinho no almoço. Por que faz isso?
1. Porque é um cidadão educado e responsável;
2. Porque não encontrou a bebida no restaurante;
3. Porque a multa é caríssima;
4. Porque a multa é pesada e muito grande a possibilidade de o autor ser apanhado.
A cada resposta corresponderá um tipo de política pública com o objetivo de reduzir o espantoso número de mortes nas estradas brasileiras. Para o pessoal da resposta 1, idealistas, digamos, a política será baseada numa campanha de educação. Para as respostas 2 e 3, saem medidas como as que vêm sendo tomadas por aqui, a elevação do valor da multa e a proibição da venda de bebidas em restaurantes e bares à beira das estradas. Mas é a alternativa 4 - realista - que se pode chamar de resposta certa. Explica a maior parte do comportamento, e é a base de políticas bem-sucedidas pelo mundo a fora: multa pesada, alta probabilidade de ser apanhado e baixíssima probabilidade de, uma vez apanhado, escapar da punição”

Sei não, mas acho que o Sardenberg andou lendo meus últimos posts aqui. Ele está certo, claro. Por que os políticos não fazem o sabidamente mais eficaz? O que dá certo? Vou responder nos próximos posts, mas adianto: eles têm uma visão idealizada paulocoelhista do chamado “ser humano”. Nunca consideram o que nós somos (auto-interesseiros) mas o que alguma ideologia diz que deveríamos ser. Vão errar sempre.

31/01/2008

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Totalmente sem tempo
Pessoal, estou sem tempo (hoje e amanhã) para posts, digamos, mais substanciosos. Mas mantenho o compromisso de pelo menos um post por dia. Durante o carnaval vou à forra (vou trabalhar, minha gente, consultor é operário, hehehe).
Para meus leitores que se viram bem com o inglês: não deixem de ler o ensaio de Matt Ridley - “
Can selfishness save the environment?”. Muito da argumentação que usei em meus últimos posts eu tirei daí. Matt Ridley é autor de um dos livros que mais cito - A Origem da Virtude -(esse tem em português, mas estou com preguiça de checar a editora, corram ao Google). O livro é excelente para quem quer entender os jogos do auto-interesse.
Mais sobre Matt Ridley AQUI

30/01/2008

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Quer mudar o mundo? Adote a "mentalidade gestão"
A discussão ambientalista embute uma grande dúvida: ou vamos exortar as pessoas a fazerem sacrifícios para o bem do planeta, ou vamos aceitar que ninguém vai fazer isso, e tratar de investir em incentivos para que elas percebam vantagens em preservar o meio ambiente.
Eu quero ajudar. Quero fazer algo para impedir que continuemos poluindo o meio ambiente e abusando predatoriamente dos nossos recursos naturais. Comecei a me informar e descobri uma ONG (famosíssima) - o WorldWatch Institute - cuja missão é:
“Trabalhar por uma sociedade ambientalmente sustentável e socialmente justa, na qual as necessidades das pessoas sejam satisfeitas sem ameaçar a saúde do ambiente natural nem a saúde das futuras gerações”.
Muito bacana, né? Estou nessa, e quero participar. Antes de me apresentar, porém, resolvi conhecer melhor o pensamento de Lester Brown, o fundador da instituição. Ele diz:
A construção de um futuro ambientalmente sustentável depende da reestruturação da economia global, de uma mudança profunda no comportamento reprodutivo das pessoas e de mudanças dramáticas em valores e estilos de vida”.
Lamento, mas o WorldWatch Institute acaba de me perder.
A chance de mudança baseada em exortações à modificação de “valores e estilos de vida” é zero. A forma que tem se revelado mais efetiva explora uma arma “ilimitada e renovável” - a propensão dos indivíduos para agir com base no seu auto-interesse de curto prazo (termo pomposo para designar egoísmo).
Onde há progressos nesse assunto - ou seja, poluição diminuindo, reservas de pesca sendo protegidas, florestas sendo preservadas etc... -, você vai notar que há um “desenho” que usa o auto-interesse para produzir os resultados que são bons para o meio ambiente. Isso se consegue via incentivos que apelam a esse auto-interesse.
O que está dando certo com poluição, por exemplo, são políticas de cotas para emissão de certos gases poluentes na atmosfera. Você pode poluir desde que não ultrapasse sua cota. Quem não ultrapassa, pode vender a outros sua sobra de créditos para fazê-lo. É um sistema de mercado, portanto. Esse sistema reconhece que as pessoas não farão nada pelo “bem comum” se não perceberem que têm algo imediato a ganhar (ou a perder). Eu aceito colaborar (poluir menos) se ganho algo com isso. Está funcionando
Você dirá: “mas é claro que todos teremos muito a perder se não fizermos nada pelo meio ambiente”.Sim, respondo, mas esse é um desses riscos percebidos como distantes e abstratos (lembra desse viés?). Ele não se conecta de forma imediata com nossas preocupações do dia-a-dia. Ganho em dinheiro sempre se conecta.
Os experimentos de Kahneman e o estudo dos vieses humanos já tinham nos ensinado: só fazemos seguro contra males que nos parecem imediatos e concretos, não contra o que nos parece serem abstrações distantes. Não diga que isso é burrice. Não insinue que eu esteja “defendendo o egoísmo” (por favor!). Eu gosto daquela música dos Titãs - eu também “só quero saber do que pode dar certo”.

29/01/2008

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O jogo do meio ambiente- o egoísmo nos salvará
Escreve-me o leitor Cesar Barroso direto dos EUA. Elogia o blog, e manda: ".. acabo de fazer um curso online na Universidade de Massachusetts, sobre aquecimento global, e os alunos foram quase unânimes em concluir que sem honestidade e espírito de sacrifício entre pessoas e nações, dificilmente haverá um combate eficaz às causas do aquecimento global. O estabelecimento das quotas de CO2, para nações desenvolvidas e em desenvolvimento, exigirá cortes que sangrarão economias.".
Vou aproveitar a deixa, pois o tema é quentíssimo. Cesar, penso o contrário de você e seus colegas. Sei que o que vou dizer não soa bem, mas o que pode salvar o planeta não é a solidariedade, não é uma vaga “mudança de mentalidade” a que se chegará por apelos e exortações-a mudança só ocorrerá se apelar ao auto-interesse dos envolvidos. Ela (mudança) tem de ser engenheirada partindo de um fato: “as pessoas” são o que são e só mudam por interesse. Não é jogo de palavras, não é vontade de parecer diferente, e não quero provocar polêmicas tolas.É que considero esse tema crucialmente importante. Geralmente, evito tocar nessas coisas por, digamos,prudência (no fundo é covardia mesmo: 100% das grandes empresas brasileiras estão na onda da responsabilidade social corporativa, e se eu começo a criticar muito, ninguém me convidará mais para fazer palestras sobre meus (outros) temas; vou viver de quê?). Bem, tá na hora de dar uma de macho (o tempo deu uma esfriada por aqui, minha mulher viajou, e eu acho que andei tomando vinho demais).
As idéias centrais da teoria dos jogos e outras idéias científicas, me levaram a uma pétrea certeza (baseada em evidência, não em wishful thinking): o que salva o planeta é uma engenharia de normas e procedimentos que tem que ser baseada no auto interesse de pessoas e países.É contra-intuitivo,mas é verdade.Estou ,como sempre,supondo que as pessoas interessadas nessas coisas querem contribuir para uma mudança efetiva,querem chegar a um resultado,não apenas reivindicar ou lamentar.Pressuponho que elas estejam interessadas em gestão,portanto.
Vou explicar direitinho
(continua)

28/01/2008

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O que motiva as pessoas a se entregarem a empreendimentos coletivos...
...que transcendam seus “eus” individuais, não é (com certeza absoluta) o “interesse pelo bem comum”.Se todos aceitássemos dirigir menos, a poluição diminuiria. Mas por que eu passaria a dirigir menos? Se todo mundo aceitar contribuir, e minha contribuição individual conta tão pouco, eu posso continuar a dirigir como sempre. É assim que todo mundo pensa, e assim é que a poluição não diminui.
É uma questão, digamos, de psicologia de massas.
Um ou outro altruísta verdadeiro (fora da média) deixa o carro em casa só para ficar respirando fumaça, com direito a passar um sufoco danado para entrar no ônibus sem ar condicionado, e arranjar um lugar para se segurar. Sentar, nem pensar. Eu quero menos poluição, claro, mas também quero um carro novo. Alguém (o governo, a opinião pública, os legisladores..) tem que se preocupar com a poluição, eu não.
Este é o pensamento da média.O fato é que, sem mecanismos que incentivem certos comportamentos, não se pode esperar que pessoas se comportem de modo a preservar o bem comum. Não depende de educação ou de geografia. É um fato econômico.
O mundo é constituído por “outros” que prezam mais suas agendas individuais do que quaisquer outras. Sem algum arranjo para acomodar interesses individuais e coletivos ainda estaríamos nas cavernas da pré-história,agora,esse arranjo não pode se basear em apelos exortativos para que "mudemos de mentalidade",isso é papo para o Papa,mas ele não é gestor.
Vejam como isso se aplicaria à questão ambiental (continua)

28/01/2008

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A verdadeira história do apagão de 2001
Imagine vários fazendeiros cujas vacas pastam no mesmo pasto.Se não há regras, cada um vai tentar colocar o maior número possível de cabeças de gado ali, o que levará `a destruição do pasto e `a morte dos animais. A atitude predominante é : “deixa eu botar mais uma vaquinha aqui, porque se eu não o fizer, alguém fará”. Perfeitamente racional, claro; mas…A maneira certa de evitar tragédias dos comuns como essa, é dividir o pasto (que é um recurso coletivo)entre os fazendeiros, de modo que cada um tenha uma área definida para suas vacas, e não apenas colha os benefícios, mas também arque com os custos de sua preservação. Ou seja: a solução é privatizar o pasto. Essa é a razão pela qual as terras das fazendas são cercadas. Mares, rios, o ar que respiramos, as florestas.. tudo isso é recurso coletivo. Você já sabe o que acontece se não houver regras que impliquem em incentivo (ou punição , dá no mesmo) `a sua preservação.
Foi precisamente esse o jogo no episódio do racionamento de energia em 2001.Ameaçando com sobretaxas INDIVIDUAIS e cortes de fornecimento idem, o governo transferiu para cada cidadão a responsabilidade por algo que até então era percebido como sendo de todo mundo . “Cercou o pasto” da energia elétrica . Usou a solução clássica para tragédias dos comuns, e deu sorte também: foi muito ajudado não só pelas chuvas, mas por algo de cuja importância até então não se tinha idéia: cada “Zé Mané“ individual(nós), percebeu que poderia deixar de gastar uma boa grana- sem tornar a vida especialmente miserável- se cooperasse. Isto é : descobrimos que era do nosso interesse colaborar. John Nash diria que governo e sociedade atigiram uma “estratégia de equilíbrio” . Nesse caso, os interesses deixam de ser conflitantes porque é vantajoso cooperar.

28/01/2008

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Leitor pergunta em comentário ao post abaixo
"..como a teoria dos jogos trata situacoes de poder politico, como na questao da CPMF ou de outros temas onde um dos participantes (oposicao ou governo) so ganha se o outro perder. E possivel a aplicacao da teoria dos jogos nestes casos? (Pedro)".
Esse tipo de jogo a que você se refere chama-se “jogo de soma zero”—alguém só pode ganhar se outro perder. Muitas vezes é impossível sair disso (futebol,xadrez,jogo da velha..),mas, em questões sociais, o talento é justamente a habilidade de transformar o jogo de “soma zero” em “soma não zero”.As coalizões políticas são tentativas disso,mas nem sempre é possível e –em política-nem sempre é bom.
Exemplo de uma área onde seria bom:saúde.A área de saúde privada no Brasil (e em outros lugares ,como os EUA) virou um jogo de soma zero.Os jogadores são:planos de saúde,pagadores(empresas e clientes individuais),prestadores de serviço(hospitais/laboratórios) e fornecedores de equipamentos e insumos médicos.Esses jogadores não conseguem estabelecer um processo em que todos ganhem,o que sempre se consegue em sistemas econômicos que funcionam bem.No sistema de saúde privado, alguém tem que perder para que outro ganhe, e então é o que se vê- uma guerra para empurrar custos de um para outro “jogador”.Quem for mais fraco quebra. É jogo de força bruta,não de talento..É um sistema que não cria valor,destrói.
A missão da agência reguladora do setor (ANS) deveria ser atuar para eliminar essa distorção, fornecendo incentivos para que todos os jogadores se alinhassem num jogo “não zero”,mas ela prefere demonizar só alguns players (como os planos de saúde, por exemplo).Não cumpre o papel de uma agência reguladora porque não contribui para que o jogo passe a ser “não zero”.

27/01/2008

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Jogos de amigos. Amigos?
Se você vai jantar com três amigos, e combinam com antecedência rachar a conta, você vai, muito provavelmente, gastar o mesmo que gastaria se cada um pagasse só o que consumiu. Há um acordo implícito para isso. Como você sabe que vai arcar com 25% da conta, e como quer manter uma relação bacana com seus amigos, escolhe pratos que custem mais ou menos o mesmo que os que seus colegas pediram (se um “amigo” mais malandro resolve pedir lagosta ao forno, depois que todo mundo pediu pizza, ele será considerado não confiável, e perderá a condição de amigo).
Já no almoço de fim de ano do escritório- com umas 30 pessoas- a coisa é diferente. Você, que está meio duro, pensa em pedir um cheeseburguer, mas os primeiros a pedir escolhem filé mingnon e camarões gratinados. Você sabe que vai pagar só 3% da conta, independentemente do que comer, e muda rapidinho - “ Vitela especial para mim, seu garçon”. O custo adicional para seus colegas será mínimo e você terá uma refeição muito melhor. Mas, todo mundo pensa como você e o grupo acaba gastando muito mais do que teria gasto se cada um pagasse individualmente pelo que consumisse (ou se o grupo tivesse se dividido por várias mesas menores). Não foi culpa de ninguém. As coisas simplesmente aconteceram assim. O grupo explorou a si mesmo. A decisão racional de cada indivíduo, leva ao pior resultado para o grupo.
Tecnicamente, por razões históricas, chamam esse tipo de jogo de “tragédia dos comuns “(commons tragedy) .Exploração de recursos coletivos sempre leva a tragédias dos comuns, e elas só podem ser evitadas introduzindo-se regras para que os participantes sejam recompensados por agir de forma altruísta(ou punidos se não agirem,o que dá no mesmo). Quer dizer, o altruísmo é “comprado” , de certa forma.E´ isso que a teoria dos jogos mostra, e é isso que a história confirma .Lembra do apagão brasileiro de 2001?Vou relembrar para você.

26/01/2008

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Me pedem que fale mais da teoria dos jogos
Bem, já escrevi muito sobre isso,mas vamos a um resuminho.
A teoria dos jogos constata que conflitos de interesse acontecem porque a regra geral ,que todos seguimos ,é maximizar, prioritáriamente, o ganho individual.Esse é seu ponto de partida, mas não pense que se trata de falta de solidariedade , civismo,ou de qualquer outra dessas qualidades apreciadas pelos adeptos das várias correntes do paulocoelhismo. É muito mais fundamental que isso.Tem a ver com a natureza íntima do animal humano( e não só dele,de outros animais também). É claro que se todos se comportassem de forma altruísta (pelo bem comum) a vida em sociedade seria uma maravilha, mas isso não tem nada a ver com a vida real.
A teoria dos jogos é um arcabouço matemático que trata das estratégias que se usa quando há “alguém” em conflito de interesses com outro “alguém”. Não tem nada a ver com moralidade, com “bem ou mal”, ou com “certo e errado”. Tem a ver só com matemática . Ela estuda o comportamento de “jogadores” fazendo de tudo para maximizar as chances de um certoresultado, que consideram o melhor para eles. Empresas, países, organizações, pessoas, envolvem-se o tempo todo em situações conflituosas.Jogos.
(continua)

26/01/2008

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