Clemente Nobrega, pesquisador de gestão e estratégia, autor de Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?, entre outros livros, e do site clementenobrega. com.br.

 
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"Feitas para durar,feitas para vencer"-Jim Collins é o rei do viés do sobrevivente
Collins e sua equipe pegaram todas as empresas na lista das de melhor desempenho da revista Fortune entre 1965 e 1995.Foram 1.435 ao todo.O objetivo era descobrir as que se encaixariam em um padrão bem específico: quinze anos de resultados na média do mercado , e então, mais quinze anos de resultados bem acima da média no mercado.Uma transição radical.
Das 1435, ele achou 11 empresas dessas, que chamou de great.Comparou as 11 “greats”,com outras 11, do mesmo segmento(concorrentes daquelas,portanto) mas que tiveram desempenho apenas bom.Era as good contra as great.
Um único dólar investido numa great em 1965 teria aumentado para US$ 471 em 2000, em comparação com US$ 56 na média do resto mercado.
Collins diz que sua equipe leu montanhas de relatórios,livros ,estudos, e entrevistou os administradores dessas empresas além de jornalistas da imprensa especializada em negócios.
Eis uma das perguntas que ele fez aos gestores das “great”:
“O que você vê como os cinco fatores principais que contribuíram para, ou causaram, a mudança em sua empresa[fazendo-a passar de “good” para “great”?
Collins deve estar brincando com a gente. Quem se dá bem na vida sempre acha que foi por mérito próprio. Os ricos sempre acham que ficaram ricos por mérito.Inventam coisas, distorcem fatos para que eles se encaixem nas histórias épicas que eles criam a posteriori.Nunca dizem,”foi sorte”.
Se você já começa selecionando baseado nos resultados obtidos pelas empresas, e então reúne dados conduzindo entrevistas retrospectivas e coletando artigos da imprensa de negócios, é muito,muito,muito improvável que descubra o que levou algumas dela a se tornarem great”. Pode ter sido sorte.
Collins também concluiu que as 11 empresas ”great” eram “porco espinho”,e não “raposa”. Sabe o que é isso?(executivos adoram esse negócio de usar “bichinhos” para dar exemplos. Eles e meu sobrinho de 5 anos).
A raposa sabe muitas coisas — ela é ligeira e esperta. Persegue muitos objetivos. Porcos-espinho (será que o plural tá certo?) sabem uma coisa só— são ,metódicos, ficam focados em uma única visão (hmmm...). Isso, diz Collins, tem tudo a ver com alto desempenho, porque as onze empresas great eram todas “porco-espínho”. Foco estreito e grande disciplina. Empresas “raposa”, em comparação, dispersavam sua atenção e energia, freqüentemente mudando de direção, mas nunca se tornavam “great”.
Se fosse meu aluno Collins teria levado zero (Tom Peters estaria preso).
Como selecionou onze empresas "great" e DEPOIS as comparou com onze que eram apenas "good", não há meios de saber se, em média, as empresas se deram melhor quando se comportaram como “raposa” ou “porco-espinho”. Muito menos podemos afirmar que o sucesso das "great" foi causado pelo fato de serem “porco-espinho”.Não sabemos quantas das 1.435 empresas na amostragem eram “porco-espinho” e quantas eram “raposa”, portanto, não podemos dizer qual grupo teve o melhor desempenho.
Veja meus posts abaixo. Veja meus comentários sobre livros como “O Milionário ao lado” e “A mente do milionário”. É o “viés do sobrevivente em grande estilo”. Se Collins lesse Kahneman e Nassim Taleb, como eu fiz,aprenderia e mudaria (como eu fiz).Mas não,quem tem tempo para refletir quando se está ocupado fazendo palestras de 150mil dólares?
Não é possível aprender nada usando a “metodologia”(!!??) que Collins usou.Não se pode afirmar nada.Todas as conclusões deste best seller internacional,leitura obrigatória nas escolas de negócios, badalado pelos jornalismo de negócios global,são baseadas em ERROS desse tipo. Fui um dos poucos que apontou isso (em 2006 em meu livro EMPRESAS DE SUCESSO PESSOAS INFELIZES, modestamente).

14/02/2008

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Vamos boicotar essa turma,minha gente!
Reli alguns livros sobre gestão que um dia me influenciaram:
-"In Search of Excellence” (Vencendo a Crise)de Tom Petere e Bob Waterman
-“Built to Last” (Feitas para durar) de Jim Collins e Jerry Porras
-“Good to Great” (Empresas feitas para vencer) de Jim Collins ,e mais dois outros livros menos conhecidos.Todos na linha de “eis aqui o segredo do sucesso das empresas que fazem sucesso.Aja assim,que você terá sucesso também”.
Tenho que confessar:não consigo entender como,um dia, cheguei a ser simpático com esses caras.Tom Peters já assumiu que falsificou dados para contar uma história charmosa,não vou mais perder tempo com ele.Agora, Jim Collins é mais pomposo,pretende ser mais rigoroso,mais científico.Passou páginas e páginas de seus dois livros nos explicando por que seu método era mais legítimo do que o de Tom Peters.Não era.Era igualmente ruim.Collins merece um tranco mais forte:seus livros são inúteis para quem quer APRENDER algo em gestão. Estou exagerando?De jeito nenhum!Seus método,seus exemplos,seus conselhos, estão TODOS contaminados pelo “viés do sobrevivente” (veja posts abaixo).São inúteis como ensinamento.Se você quer ouvir historinhas ,fofoquinhas,se empanturrar de platitudes,ok.Se quer aprender algo,nem pegue nesses livros. Me deprime pensar que nossos cursos de administração por aí (quase 700mil alunos no Brasil) adotam essas leituras.Quando eu digo que a maioria desses alunos vai dirigir táxi, me criticam (perdão taxistas).Em matéria de conteúdo ,“CARAS”,”CONTIGO” e o “BIG BROTHER”,têm mais .
Veja o seguinte exemplo do livro EMPRESAS FEITAS PARA VENCER,de Jim Collins- o cara que,dizem, cobra 150mil dólares por palestra,best seller mundial,incensado por toda a literatura de negócios.Vou usar como exemplo uma de suas recomendações,mas o método que ele usa para chegar a ela é o mesmo de todas as conclusões a que chega. (continua)

13/02/2008

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Dois dias sem postar,volto na quarta
Desculpem o sumiço.Viagens,viagens,viagens.Quarta(13) tem post novo (quer dizer, post decente).
Enquanto isso,leiam e comentem a coluna deste mês(post abaixo).Ousaria dizer que é a melhor que já fiz para a Época Negócios.Sou "foca",todo mes levo puxão de orelha porque ultrapasso o espaço permitido.Ainda aprendo.Em meu site coloquei a versão original (sem cortes).É praticamente a mesma,apenas elaborei um pouquinho mais o caso da Procter&Gamble.

12/02/2008

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Minha coluna na Época Negócios de fevereiro
Começa assim:
Como é que se adquire uma competência?A criança aprende a andar; o organismo fica resistente a uma bactéria; a bactéria fica resistente ao antibiótico; o artista chega a uma idéia criativa; a empresa aprende a inovar.. A resposta geral é: tente muitas variantes e retenha o que funciona. Variação-seleção-retenção. Tentativa e erro. Não é um insight novo (“seleção natural”), novo é usar isso em gestão da inovação. A revista The Economist diz que esse uso “é um dos maiores pensamentos a emergir da pesquisa sobre inovação nos últimos tempos”. Em inovação, “seleção” não pode ser tão “natural” assim, tem que ser gerenciada ativamente. Vou explicar.
Considere uma empresa como o Google. Eles produzem “variação” a partir de uma regra simples: ”deixe seus engenheiros gastarem 20% de seu tempo em projetos de sua livre escolha, sem nada a ver com o que fazem no dia-a- dia”.Gera-se montanhas de idéias novas e alguns produtos campeões assim (Gmail por exemplo).Mas vale a pena?Gera mais do que custa para a empresa? Eles não sabem. Eric Smith, o CEO, diz que a simples tentativa de medir o processo da inovação paralisaria tudo lá. No Google, então, inovação é criatividade não gerenciada. Será essa uma regra geral? “Não”, diz Jeff Immelt, CEO da GE

Leia a continuação na revista ou em meu
site a partir de segunda feira,11.02.2008

10/02/2008

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A riqueza de Bill Gates, o sucesso de Ronaldinho Gaúcho...
Uma sala de cirurgia é um ambiente maximamente controlado. Tudo ali é pensado para, digamos, não dar chance ao azar. Há alternativas previstas para eventualidades que possam acontecer -equipamentos em standby, protocolos alternativos se algo complicar etc. O acaso está o máximo possível sob controle, digamos assim.
Portanto, se um certo cirurgião começa a obter resultados consistentemente melhores que seus colegas para a mesma cirurgia, realizada naquele mesmo ambiente, seguindo os mesmos procedimentos, você pode jurar: “esse cara sabe algo que os demais não sabem. Seu sucesso está vindo de algo que o diferencia, vamos aprender com ele o que é”.
Agora, imagine milhares de cirurgiões competentes, usando os procedimentos que bem entendem. Nada de protocolos, nada de redundâncias, nada de tentar prevenir o acaso,nada de metodologias muito específicas.Certamente haveria um que teria melhor resultado por pura chance. Mesmo que tivesse talento (como tem), não teria sido isso a causa de seu sucesso. Se fosse possível repetir o experimento é praticamente certo que outro cirurgião iria ficar no topo (se o primeiro repetisse a façanha, aí sim, poderíamos estar razoavelmente certos do “algo mais”).
Agora, suponha que os resultados do experimento com aquele cirurgião que se destacou dos demais por sorte, tenham sido divulgados intensamente. Ele, então, graças à publicidade, começaria a ser mais procurado, e, como é competente, estabeleceria uma excelente reputação e veria sua clientela aumentar. Sua reputação é merecida, mas teve origem no acaso, não em qualquer talento acima da média.
Não estou dizendo que Bill Gates não tem talento, estou dizendo que numa grande população de empreendedores competentes, ao acaso, é praticamente certo que apareça alguém como Bill Gates, por pura sorte. Ronaldinho Gaúcho é a mesma coisa: numa população enorme de jovens talentosos (milhares e milhares pelo mundo a fora), um ou outro terá a chance de ser notado. Como tem talento,sua careira vai decolar.
Bill Gates não planejou ser Bill Gates.
Ele é um cara preparado, inteligente, empreendedor brilhante, mas será o melhor? Seu sucesso veio por mérito singular? Não, não veio. Veio por acaso (todo mundo usa Windows porque todo mundo usa Windows, se você quiser sair desse padrão corre um risco que a maior parte das pessoas ainda prefere não correr.O sistema Apple é objetivamante melhor do que o Windows desde sempre, mas é um perdedor).
Bill Gates ajudou o acaso com seu preparo; se não tivesse preparo não teria tido sucesso, mas ele não foi a causa de seu sucesso.Na turbulência da época em que tomou as decisões que levariam ao sucesso, ninguém poderia saber que elas eram as decisões certas. Só fica claro depois, mas dá sempre a ilusão de que já estava definido antes. Não estava. Foi sorte.
Obs: a história que levou ao sucesso da Microsoft é um primor. Várias circunstâncias que Bill Gates não controlava acabaram levando a IBM a contratar sua empresa para desenvolver o sistema operacional de seus PCs. Ele nem queria o contrato, indicara um cara chamado Gary Kidall,famoso no underground dos hobbystas.Esse cara,na hora agá,resolveu faltar à reunião que definiria tudo para ir “andar de balão”. A IBM,frustrada,voltou a Bill Gates.Ele tinha indicado o cara e se sentiu obrigado a segurar o pepino.Comprou ,às pressas,por US$50mil, um software rudimentar chamado Quick & Dirty Operational System (Q-DOS) de uma empresinha de Seattle,modificou-o e repassou-o à IBM com o nome de PC-DOS.Numa jogada fortuita, no final das negociações,Gates obteve a concordância da IBM para que a Microsoft pudesse vender uma versão modificada desse sistema para quem ela quisesse. A IBM nem ligou.Não estava interessada em software.O resto é a história que nos contam, de como Bill Gates com seu olhar de lince,e sua mente “muito à frente de seu tempo”,previu, naquele dia,naquela hora, tudo o que iria acontecer na indústria de tecnologia pelas próximas décadas,e se tornou o homem mais rico do mundo. Hahahaha..

09/02/2008

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Para entender Darwin você tem que se livrar do “viés do sobrevivente”
Para mim a melhor idéia de toda a ciência é a idéia de Darwin, á frente de Newton, de Einstein, e da turma que fez a Física Quântica.
Darwin descobriu como as coisas mais complexas que conhecemos-as coisas vivas- surgiram sem projeto. Um cérebro,um coração,um joelho,um sistema nervoso...Essas coisas vêm da variação produzida pela chance, somada a um processo de filtragem exercido pelo ambiente. O que o ambiente filtra (seleciona) fica retido enquanto estiver adequado àquele ambiente. Adequado, como assim? Adequado a sobreviver para gerar crias. A complexidade veio se organizando durante os 5 Bilhões de anos em que a vida existe.É muito “macaco digitando”,não é não?(post abaixo),mas nunca diga que a vida é produto da chance-um argumento usado por gente(ignorante) que se recusa a aceitar Darwin.As coisas vivas que conhecemos são chance+filtragem.
Não houve designer. Nós somos o que sobrou de uma infinidade de tentativas que "não deram certo". Tentativas que ocorriam ao acaso, produzidas por mecanismos que começaram a atuar sobre as formas simples em que a vida se manifestou pela primeira vez, há 5 bilhões de anos. De novo:as tentativas ocorriam ao acaso,a seleção não tinha nada de acaso."Seleção",na verdade, é o oposto exato de "acaso".
Contemplamos os maravilhosos designs das coisas vivas- uma minhoca, um bebê- e pensamos:não é possível que isso tenha surgido sem um designer.Mas surgiu,e Darwin mostrou como.É uma idéia simplicíssima,mas nada óbvia,pois vai contra o senso comum.A complexidade dos organismos vivos é um mecanismo de relógio sem um relojoeiro.No caso da evolução,o “relojoeiro é cego”,para usar a imagem de Richard Dawkins. As maravilhas que contemplamos são a sobra infinitesimal de tudo que o acaso “tentou”. É (quase) como o livro que aquele macaco escreveu.O livro surgiu por chance pura, dada a quantidade de macacos(post abaixo) que "tentava". Com a complexidade organizada não, o ambiente decide o design certo; seleciona e edita o texto final.
Esta é a idéia de Darwin. O processo de variação-seleção-retenção é universal, e é usado por tudo o que aprende. Não sei se você sabia, mas é usado até em gestão da inovação. É esse o tema de minha coluna na Época Negócios que acaba de sair. Até domingo à noite falo da coluna aqui. Antes,temos de entender como o Ronaldinho Gaúcho,Bill Gates e outros ficaram ricos.

09/02/2008

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O macaco que escreveu o próximo livro de Paulo Coelho
Os gurus gostam de nos ensinar coisas a partir de exemplos de sucesso escolhidas a dedo.Empresas “feitas para durar”,por exemplo. Ao estudá-las,escolhem, muito naturalmente, as que duraram. Fazem isso na suposição de que, se duraram, é porque fizeram a “coisa certa”. Haveria,portanto, um padrão de “coisa certa” a ser aprendido e generalizável para outras empresas.Uma de minhas conclusões recentes, é que não há padrão específico nenhum.Nenhunzinho. Não se pode afirmar nada conclusivamente olhando só os “sobreviventes”. O sucesso pode ter tido realmente causas relacionadas a algum talento único, mas também pode ter acontecido por pura chance. Depende de quê mesmo?Depende de como o acaso joga seu jogo naquele contexto específico-aquilo que Nassim Taleb chama de “estrutura do acaso”.
O exemplo dos “macacos datilógrafos”(que usei em meu livro “Em Busca da empresa Quântica”, de 1996) é muito usado para discutir isso. É o seguinte: qual a chance de um bando de macacos, batucando à esmo em teclados de computador, escrever algo inteligível? Resposta: depende do número de macacos. Parafraseando Nassim Taleb: se há 5 macacos na amostra eu ficaria muito surpreso se algum deles escrevesse ,digamos, “O diário de um mago”, do Paulo Coelho (se acontecesse, eu consideraria isso uma mágica do Paulo Coelho, ou alguma intervenção sobrenatural que fez com que o macaco encarnasse o autor).
Mas, se o número de macacos fosse um bilhão elevado à potência de um bilhão, eu ficaria surpreso se algum dos macacos não reproduzisse, por puro acaso, algum livro bem conhecido (mas não especificado). Poderia ser até mesmo o próximo livro do Paulo Coelho, que o próprio PC ainda nem sabe qual será (quem sabe nosso macaco escritor não aproveitaria o embalo para dar uma melhorada no estilo do cara? Ou, melhor ainda, quem sabe não motivaria seus colegas símios a apreciarem o livro, poupando-nos do incômodo?).
Se alguém se deu melhor que a multidão no passado, é válido presumir que tenha alguma habilidade que o fará dar-se melhor no futuro também, mas essa presunção pode ser tão fraca a ponto de ser inútil para a tomada de decisão. É inútil no caso das assim chamadas empresas campeãs e seus líderes inovadores, visionários etc... Por quê? Porque tudo depende de dois fatores: a estrutura do acaso e o número de macacos que estavam “digitando”. No caso das “empresas feitas para durar”,tem macaco demais e o acaso joga um jogo muito mais complexo do que o que ocorre no consultório do dentista. A gente só vê e houve falar de quem sobreviveu. Entre os milhares de empresas experimentando todo tipo de estratégia, alguma vai sobressair. Seria essa necessariamente a melhor?Não. A mais sortuda ,talvez.Mérito só leva a sucesso em larga escala se combinar com a estrutura do acaso.
Próximos posts: para entender o que Charles Darwin propôs e por que ele estava certo, você tem de pensar sem “viés do sobrevivente”/
E o Ronaldinho Gaúcho hein?Tem talento, mas ficou rico por sorte.

08/02/2008

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Como ficar milionário com talento zero
Há inúmeras maneiras de mostrar que é possível ter sucesso por muito tempo - ficar rico, sair na capa de revistas, dar entrevista nas páginas amarelas, virar conselheiro de jovens universitários etc... - sem absolutamente nenhum talento. Desde 1998 eu trato disso em meus livros. Vou reproduzir livremente um exemplo que Nassim Taleb dá:
Considere um conjunto imaginário de, digamos, 10 mil operadores financeiros. Cada um tem 50% de probabilidade de ganhar R$ 10 mil no final do ano, e 50% de probabilidade de perder R$ 10 mil. Vamos introduzir também a seguinte regra: se um operador tiver um único ano ruim, é imediatamente demitido de nossa corretora imaginária. Jogo uma moeda: cara, e o operador ganha R$10 mil; coroa, e ele perde R$ 10 mil. No fim do primeiro ano, 5 mil operadores terão ganho R$ 10 mil e os outros 5 mil terão perdido e são demitidos. No fim do segundo ano, a mesma coisa, e 2,5 mil operadores terão tido ganho por dois anos consecutivos; no ano seguinte, 1,25 mil; no quarto ano, 625; no quinto, 313. Temos 313 operadores que ganharam dinheiro por cinco anos seguidos por pura sorte! Enquanto isso, a imprensa descobre um desses “talentosos” traders e começa a falar sobre ele. Saem reportagens sobre seu estilo incisivo, sua mente ágil, sua coragem arrebatadora. Alguém vai investigar sua vida para descobrir as influências que formaram aquele caráter tão especial. Alguns atribuirão seu sucesso a certas experiências vividas na infância. Aparecerá uma velha empregada que vai jurar que “sempre percebeu um brilho diferente no olhar daquele menino”. Seu biógrafo vai falar do exemplo notável que seus pais lhe deram. Nas páginas centrais de sua “autobiografia” (que um gho$$$twriter está escrevendo), veremos fotos antigas, em preto-e-branco, de uma grande mente em formação. Mas, no ano seguinte, a sorte pode acabar (lembre-se que a chance de ele ter um bom ano permaneceu em 50%), e aí, minha gente, ouviremos novas “explicações”. Os analistas vão falar que sua “ética de trabalho” deteriorou, vão dizer que ele começou a viver uma vida desregrada, vão achar alguma coisa que ele fazia antes, quando tinha sucesso, que parou de fazer, e vão atribuir sua queda a isso. A verdade, porém, será uma só: a sorte acabou.
Próximo post: o macaco que escreveu o próximo livro de Paulo Coelho

07/02/2008

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Para saber se alguém ficou rico por sorte ou mérito,
... você tem de considerar duas coisas. O tamanho da amostra dos concorrentes e o conteúdo de incerteza (acaso) envolvido naquela atividade. Vou começar com o “conteúdo de incerteza”. É o seguinte: entre um dentista rico e um operador financeiro igualmente rico, é mais provável que o dentista tenha ficado rico por talento do que o operador financeiro. Sorte influi menos no sucesso de um dentista, porque o "conteúdo de incerteza" inerente à sua profissão é menor. Por isso, quando você vê um deles (dentista) muito rico, é um sinal (quase) certo que ele tem algum talento que a média de seus colegas não tem. Operadores financeiros não. Esses têm mais chance de acertar por pura sorte, sem qualquer talento que os diferencie da média de seus colegas. Não é incomum ver gente destituída de qualquer “saber especial” ficar rica operando no mercado financeiro. Idem para artistas de cinema, escritores, jogadores de futebol, administradores de empresa... Explicação? Sorte. Chance. Acaso. Randomness. Chame como quiser, mas "talento especial", necessariamente, não é.
Olha, não estou dizendo que essas pessoas não têm talento, estou dizendo que PODE não ter sido o talento a explicação de seu sucesso.
Nassim Taleb, autor que me inspira nesses comentários - ele mesmo um operador financeiro de sucesso que não se atribui qualquer talento especial - conta histórias deliciosas sobre a ascensão e queda de seus colegas traders que um dia ficaram riquíssimos. Acreditaram, portanto, que tinham um “talento especial”, até que foram para o buraco e perderam tudo. “Blew up”, como eles dizem.
Sou fascinado por essa idéia. É por isso que tenho tanta má-vontade com esses supostos “vitoriosos” - que chamo (sem nenhum respeito) de “masters do universo”. Geralmente são “bem-sucedidos” que, sem nada no curriculum além do fato de serem ricos, acham que têm um mandato especial para nos ensinar a “fórmula do sucesso”. Vivem falando sobre eles próprios - sua visão, sua energia criativa, seu “foco” (arghh...!). Depois de algum tempo, escrevem biografias melosas para nos ensinar coisas (escrevem não, contratam alguém para escrever). Mas que “fórmula de sucesso”, cara? Pode ter sido sorte! Você pode ser apenas um “sobrevivente”, cuidado!
Nos próximos posts: como ficar milionário sem nenhum talento/como o tamanho da amostra gera a ilusão do mérito em quem faz sucesso/o cirurgião que ficou rico por mérito/ o macaco que escreveu o próximo livro do Paulo Coelho/como Bill Gates ficou bilionário/como o Google virou a empresa queridinha dos gurus.

06/02/2008

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Fui recuperar uma VEJA antiga que traz na capa a seguinte chamada:
"Ambição - ela produziu maravilhas e tragédias. Agora se sabe como usá-la na medida certa na vida pessoal e profissional".
No início, as platitudes de sempre:"[as pessoas que fazem sucesso] parecem visualizar claramente o que querem, planejam para atingir esse objetivo, e acertam na hora de colocá-lo em prática" - informação que, para mim, é tão conclusiva quanto a que diz que para ganhar dinheiro basta comprar o bilhete certo da loteria (comprar o bilhete é condição para ganhar, mas está longe de ser suficiente).
E lá vêm os exemplos de vitoriosos sobreviventes: Adriane Galisteu, Paulo Coelho, Bill Clinton, Britney Spears... pessoas que correram atrás de seus sonhos etc. e tal. Mas, sem querer ser chato: e os milhares e milhares que não conseguiram, apesar de terem sonhado, desejado, corrido atrás etc..?
Nunca consigo pensar nos conselhos dos vitoriosos sem considerar os não vitoriosos. Eles são a maioria, e não vejo por que considerá-los perdedores.
A reportagem prossegue:"..Nas empresas, a ambição é praticamente um mantra. Dez entre dez gurus na área de RH afirmam que sem ela um profissional não vai longe".Os gurus estão certos, ambição é condição necessária para vencer, mas não é suficiente. O cemitério corporativo está atulhado de ambiciosos (continua).

05/02/2008

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Microsoft, Google etc... Talento ou sorte?
Em ambientes como o do mundo dos negócios - principalmente em setores como a indústria de TI, carregados de incerteza - alguém pode acabar emergindo vencedor por pura sorte; por ter tomado decisões que, na hora em que ocorreram, foram tomadas sem nenhuma antevisão do que viria em seguida. Chance pura. Pense em Bill Gates, nos caras que inventaram o Google ou em quem você quiser. Os "sobreviventes" sempre despertam a ilusão de que têm algum talento que os outros não tinham, mas é só isso mesmo: ilusão. Pior ainda: muitos deles consideram-se predestinados, possuidores de uma percepção diferente das coisas, alguma conexão mágica com forças sobrenaturais.
O viés do sobrevivente causa um estrago monumental nas cabeças de quem usa exemplos de “vitoriosos” para tomar decisões em sua própria vida.
Nassim Taleb diz em Fooled By Randomness:
Há um livro tolo chamado O Milionário ao Lado - (um dos autores escreveu um ainda mais tolo chamado A Mente do Milionário). Entrevistaram um punhado de milionários para entender como enriqueceram, e descobriram algumas características que os ricos têm. Você precisa de um pouco de inteligência, muito trabalho duro, e aceitar correr muito risco. E aí eles concluíram que - oh! - correr riscos é bom para você se você quer ser um milionário. Eles esqueceram de dar uma olhada no cemitério. Veriam gente falida, fracassos, empresas que tiveram de fechar. Teriam descoberto que algumas das mesmas características estavam presentes nesses cadáveres - trabalho duro e correr riscos entre elas. Isso me diz que a única coisa que os milionários têm em comum é uma sorte danada”.<br/>

05/02/2008

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