Clemente Nobrega, pesquisador de gestão e estratégia, autor de Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?, entre outros livros, e do site clementenobrega. com.br.

 
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Minha coluna na Época NEGÓCIOS de março
começa assim:
Sucesso do Google não tem nada a ver com gestão.
Discordo de Gary Hamel. Em seu último livro, O Futuro da Gestão, ele diz: "o Google é um pioneiro da gestão moderna, que tem muito a ensinar sobre como construir empresas realmente adequadas ao século 21".
É bom ter cuidado com Hamel. Eis o que ele escreveu sobre a Enron pouco antes do desastre: "Mais do que qualquer empresa do mundo, a Enron institucionalizou a capacidade de perpetuar a inovação, é uma empresa onde milhares de pessoas se vêem como revolucionários potenciais". Como diria o Hugo Chávez, "revolucionários de mie..da" é o que eles eram.
Por que o Google seria o “paradigma da gestão do futuro”, e não British Petroleum, Toyota ou Wal-Mart, por exemplo? Empresas de internet são mais sexy, né? Tá certo: o Google é bacana, atrai talentos em penca, é engraçado, criativo, informal. Sua sede tem barbeiro, piscina, quadras de vôlei, creche. A turma trabalha com grande liberdade. Mas foi isso que causou seu sucesso? Não. A causa foi uma só:"
Leia amanhã na revista ou, também a partir desta quarta, em meu site (www.clementenobrega.com.br) uma versão um pouco estendida.

04/03/2008

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Trazemos programados em nós dois instintos:
...um para cooperar, outro para detectar a fraude. Não tente me enganar fingindo que está trabalhando, quando não está! Nada de aparecer só na hora de dividir a caça. Nós cercamos os coelhos, temos um trabalhão para abatê-los e aí, você, que não colaborou em nada, tem a cara de pau de querer participar da divisão?
Fraudar, nesse sentido, é da natureza humana. A tendência para a fraude é parte do nosso make-up. “Deixa a turma trabalhar, eu só apareço na hora do bônus”. Os economistas chamam isso de “problema do carona” (free rider problem). Em toda empresa do mundo existem “caroneiros”.
É papel do gestor reduzir seu número ao mínimo.
Especialistas notam que quanto maior o tamanho da caça, mais elaborada é a organização do grupo. Motivadas pelo interesse comum de abater uma girafa, surgem hierarquias de comando, normas de comportamento, líderes, soldados.
A busca da eficiência na divisão do trabalho impõe alguma organização mais pensada, menos intuitiva. A empresa moderna é uma mutação dessa forma ancestral de organização humana. Não a dos Soshones e suas redes para pegar coelhos, mas a dos caçadores de girafas. Caça grande. GE, Toyota, IBM, Exxon.
Os mais talentosos nas artes importantes para a empreitada da caça tornavam-se os líderes naturais, tinham mais status e muitos privilégios. Ser líder sempre conferia uma posição especial. Não há registro de grupo humano em que a busca de status e poder não seja um poderoso motivador. Está aí a origem da brigalhada política que você conhece tão bem em sua empresa (conchavos, feudos etc... )
(continua em algum post aí para a frente)

04/03/2008

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Uma tecnologia como a rede de cipó que os Soshones usam...
(veja dois posts abaixo) ..., aumenta a produtividade e dilui os riscos (de você ficar sem nada para comer), por meio do trabalho em grupo.
É bom demais, mas é aí que começam os problemas dessa “empresa”. Como dividir os 50 coelhos? Teve gente que se esforçou mais, teve gente que trouxe mais talento para o empreendimento. O cara que inventou a tecnologia da rede de cipó acha que tem direito a mais coelhos do que os outros. Os outros retrucam, dizendo que de nada adiantaria a rede se eles não estivessem lá para manuseá-la. E mais: se a regra for dividir os coelhos igualmente pelos 20, um velho pecado humano vai se manifestar: gente que quase não se esforçou tira partido do esforço dos outros (“para que eu vou me esforçar? Os coelhos vão ser divididos igualmente mesmo...”).
Parasitismo existe, gente. Você sabe disso. Olhe para sua empresa.
Os que realmente se esforçaram vão ficar furiosos e/ou vão pedir demissão, ou vão mergulhar no cinismo (às vezes, na amargura). Pouca coisa maltrata mais do que o sentimento de injustiça. Matt Ridley, um especialista nesses temas, escreveu:
“Pessoas em toda parte têm uma tendência inata para monitorar o comportamento umas das outras. Monitorar a real contribuição que cada um está dando. Consciente ou inconscientemente, todo mundo faz isso. Em todas as culturas há fofocas no ambiente de trabalho sobre quem é parasita e quem é, de fato, jogador do time. Em todas as culturas as pessoas estão antenadas sobre quem é preguiçoso e ingrato, e calibra sua própria generosidade de acordo. Em todas as culturas as pessoas tentam sempre, sem exceção, fazer o melhor negócio possível para elas próprias”.
Mas voltemos àquele grupo de caçadores de girafa (tão parecido com a empresa em que você trabalha).
(continua)

03/03/2008

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Em “O GLOBO” deste domingo (02 março), manchete do caderno “BOA CHANCE”:
“Satisfação dá lucro - levantamento prova que, nas empresas em que o bem-estar dos funcionários é alto, a rentabilidade está acima da média”
A manchete e a matéria induzem você a acreditar no seguinte: “quer obter rentabilidade acima da média? Invista no bem-estar dos funcionários”. Ou: “funcionários satisfeitos CAUSAM maior rentabilidade”. Não há evidência nenhuma de que isso seja verdade. O fato de “satisfação” e “rentabilidade” estarem correlacionados não significa que satisfação CAUSA maior rentabilidade. Correlação não é causa.
Este é mais um exemplo da tendência que o jornalismo de negócios tem de nos levar a conclusões falsas. Eu posso argumentar que é o sucesso da empresa (sua rentabilidade) que leva à satisfação dos funcionários, não o contrário. A maneira como essas pesquisas são realizadas não nos permite concluir nada.
Pode chamar isso de “síndrome do Google” (veja minha coluna na Época NEGÓCIOS que sai esta semana). O Google deixa que seus funcionários gastem 20% de seu tempo fazendo o que bem entendem, e tem sucesso. Aí vem a conclusão: “liberdade para os funcionários causa o sucesso”. Falso. O Google já tinha sucesso antes de adotar essa prática.
Se essas mesmas empresas, amanhã, tiverem uma queda de performance, já posso imaginar as manchetes: “Excesso de mordomias leva à acomodação, e a empresa XX mergulha no prejuízo”. Este é o maravilhoso mundo da gestão, leitor.
Amanhã volto aos caçadores de coelhos e à história da maior inovação de todos os tempos: a empresa.

02/03/2008

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Apesar de não ter animais grandes para caçar, às vezes...
... em seu habitat natural, os Shoshones encontram coelhos em abundância. Quando isso ocorre, imediatamente as famílias que antes estavam muito felizes cavando seus buracos isoladamente, usam uma tecnologia que permite uma colaboração mais elaborada: uma rede.
Para pegar os coelhos, surgem enormes redes fabricadas com uma espécie de cipó. Os coelhos presos nela são mortos a pauladas. Uma família sozinha não dá conta de manusear a rede, é necessária a cooperação de muita gente. Famílias Shoshones - às vezes uma dúzia delas - se juntam sob o comando de um líder.
A tecnologia - a rede de cipó - é que viabiliza a interação.
Repare o bom negócio que eles descobriram: pegue 20 Shoshones que, se caçassem individualmente pegariam, com muita sorte, um coelho cada, e forme um time com eles. Agora eles pegam 50 coelhos, manuseando a rede em conjunto. Dá 2,5 coelhos para cada um, e com menos esforço. Ganho de produtividade é isso aí!!! Um negócio bom demais para ser ignorado. Quem tiver chance de saber desse truque vai querer participar. Com tempo suficiente para a novidade se espalhar, todo mundo acaba vendo que cooperar para pegar coelhos é melhor para todos.
Esse padrão - uma tecnologia viabilizando (motivando) interações de “soma não zero” entre estranhos - está presente desde tempos ancestrais (repare a figura dois posts abaixo).
Lembre-se de que a globalização - esse “troca-troca” desenfreado por todo o globo - só aconteceu porque ficaram disponíveis novas tecnologias, que permitiram a todo mundo transacionar com todo mundo.
Isso acontece porque os ganhos ficam irresistíveis para todo mundo!

01/03/2008

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A empresa foi inventada para caçar “girafas”
Dividindo o trabalho, produzimos mais. Esta é a base para o crescimento e a riqueza, ninguém contesta essa verdade econômica. Mas, cooperar com estranhos?
Pessoas estranhas umas às outras (sem ligação genética) trabalhando com o mesmo objetivo seria impensável para nossos ancestrais - vai contra o instinto natural. Como aconteceu? Por auto-interesse, não por generosidade ou altruísmo. Mas aconteceu. Como?
Antropólogos têm documentado remanescentes do estilo de vida dos caçadores-coletadores em vários continentes. Os africanos!Kung San caçam girafas; por isso, suas relações sociais são complexas - muita gente tem de colaborar para abater uma girafa. A coordenação dos movimentos é mais complexa, exige hierarquia, sincronização, uma certa "gestão", digamos.
Os Shoshones, na América, ao contrário, vivem em bandos fluidos, constituídos por famílias isoladas. Em seu ambiente não existem animais grandes para ser caçados. Shoshones remexem o chão em busca de raízes e sementes. Não é preciso nenhuma organização muito complexa para fazer buracos no chão.
Repare a analogia com as empresas. Enquanto o empreendimento é pequeno, a família dá conta muito bem, mas, para crescer e aproveitar as economias de escala que vêm com o tamanho, a família tem de admitir estranhos (acionistas etc..). A empresa que surgiu no século 19 surgiu para caçar as "girafas" que começaram a surgir nos mercados por causa de uma tecnologia nova: a estrada de ferro. Veremos mais à frente como foi isso (continua).

29/02/2008

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A figura abaixo...
... mostra o aumento da renda per capita na Europa. Não é coincidência que a curva, que vinha quase “flat” por cerca de mil anos, tenha dado um salto no século 19. Riqueza sempre está associada a tecnologias novas. A empresa moderna surgiu nessa época, e foi ela a tecnologia decisiva para o aumento de riqueza. Nunca houve uma inovação assim pois, sem ela, nenhuma outra forma de inovação seria possível.
A empresa é muito recente na história humana (tem 150 anos).
Antes, já havia formas de organização como exércitos e hospitais, mas a chamada “joint stock corporation” (algum leitor me ajuda na tradução desse termo?) - a empresa de capital aberto, em que os acionistas não têm responsabilidade pelas besteiras que a empresa possa fazer - é uma coisa totalmente nova. A empresa moderna é uma pessoa - tem uma personalidade jurídica própria. Desculpe falar assim, mas a ambição humana - a vontade de ficar rico - é que foi a maior motivação para o seu surgimento. É uma história sensacional. Os cursos de administração (aqueles que formam alunos para dirigir táxis) - começam e acabam sem menção nenhuma a isso. Um escândalo.
(continua)

28/02/2008

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A agricultura surgiu no oriente médio há 10000 anos e espalhou-se...
... numa grande onda, chegando à Irlanda e Escandinávia há uns 4500 anos. Provavelmente, essa tecnologia de produção de comida surgiu de forma independente muitas vezes. Por que a agricultura ficou comum? A resposta óbvia seria: ela torna a vida mais fácil, mais feliz; mas isso não é verdade. Há muitas evidências de que após a agricultura a vida ficou mais dura, não houve melhora dos padrões de nutrição, nem redução de doenças nos povos que a adotaram. A vida dos primeiros agricultores era uma desgraça. Esqueletos egípcios da época contam uma história terrível. Dedos e colunas deformados pelo esforço de moer grãos; sinais de artrite grave, e abscessos horrorosos nos dentes. Provavelmente, ninguém vivia mais de trinta anos. Ao contrário, os caçadores-coletadores que foram eliminados da paisagem pelos agricultores passavam apenas umas quinze horas por semana caçando, e tinham bastante tempo de lazer. Por quê, no mundo inteiro, praticamente todos os povos abandonaram uma vida fácil, e escolheram esse estilo de vida barra pesada?A resposta é: aumentos brutais de produtividade. Especialistas acham que a agricultura foi adotada por que trouxe vantagem à sobrevivência de quem a adotava-como, por meio dela, se conseguia obter mais alimento de uma certa área, era possível alimentar mais bocas e as mulheres tinham mais filhos que as mulheres dos grupos não agricultores. Assim, as primeiras comunidades agrícolas, crescendo, empurravam os caçadores para mais longe. Uma vez que a agricultura chegava, ninguém podia dar-se ao luxo de dizer-“quero manter meu velho estilo de vida”. Não havia opção. Dez agricultores mal nutridos podem expulsar facilmente um caçador selvagem e ocupar suas terras. Foi o aumento da população, viabilizado por excessos de alimento, que foi decisivo. Os caçadores-coletadores não abandonaram seus estilos de vida, eles foram obrigados a ir embora para terras imprestáveis para os agricultores. Os caçadores – coletadores que existem ainda hoje, vivem apenas em terras que não servem para a agricultura, como no ártico e nos desertos.
+++++++++++
A agricultura –inovação que está na origem da vida civilizada-surgiu e se impôs sem que ninguém a tivesse planejado.Ela tornou a vida mais difícil,não mais fácil.
A empresa moderna- a grande corporação multinacional de capital aberto-é outro instrumento de progresso e riqueza, que também surgiu sem nenhum arquiteto.Houve (muita) resistência, mas ela se impôs pelas vantagens inegáveis que trazia para o desenvolvimento,riqueza,melhora dos padrões de vida.
Ninguém conseguiu “não adotar” a agricultura e viver decentemente.
Ninguém consegue “não adotar” a empresa capitalista e ser relevante no mundo,mas a razão é bem diferente:ninguém se desenvolve sem ela.Ela não se impõe à força,ela é escolhida como instrumento para o desenvolvimento.
Vejam a China “comunista”.Olhem Cuba.Fiquem olhando.Se quer progresso vai ter de deixar o bicho entrar na sala de jantar.Vamos agora examinar um pouco melhor a natureza dessa “besta”.

Próximos posts:aumentos de produtividade-a empresa moderna e um conto de caçadores de coelhos(??)


27/02/2008

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O conto da agricultura (I)
A “organização” (a empresa) começa quando os humanos são forçados a passar a confiar em estranhos para sobreviver.
Há 10 mil anos, quando a agricultura (a tecnologia decisiva para a civilização) foi inventada, bandos de humanos vagavam pela Terra em busca de alimento. Você pode não acreditar, mas eles tinham uma vida boa. Caça abundante. Trabalhava-se menos. Tinha happy hour todo dia, e a deles começava cedo. Estranhos - gente não relacionada biologicamente aos membros do grupo - eram sempre inimigos. Se fosse um macho, então...
Não havia nada, nadinha, que indicasse que aqueles pré-históricos iriam virar gente como nós.
-Por volta do fim da época conhecida como Idade do Gelo - há uns 18 mil anos - havia caça abundante no sudeste da Europa (França, Espanha, Portugal hoje..). Os caçadores tinham à sua disposição enormes rebanhos de bisões e outros animais. São desse período as pinturas nas cavernas de Altamira, na Espanha, e Lascaux, na França, sempre mostrando em detalhes vívidos os animais que eram o centro do dia-a-dia dos humanos de então. Figuras humanas aparecem só raramente nessas pinturas, e quando aparecem nunca são mostradas em detalhes – são sempre bonequinhos desenhados com traços infantis. Os animais parecem desempenhar o papel de divindades.
Podemos imaginar algo assim: até aquela época, a sobrevivência era tão fácil que não havia nada a que se pudesse chamar de trabalho. À medida que a era glacial se aproximava do fim, o clima esquentava, as manadas diminuíam e os caçadores começavam a ter de se contentar com presas menores e com menos carne. Para proteger seu acesso a um estoque de alimentos que ia escasseando, alguns grupos começaram a proteger pequenas manadas de bisões, mantendo-as afastadas de predadores e de outros caçadores. Chame isso de “reserva de mercado”, se quiser. No início, eles apenas seguiam as manadas aonde elas fossem, mas, eventualmente, aprenderam a guiá-las entre os pastos disponíveis em cada época do ano. Para esses grupos, a domesticação dos animais substituiu a economia nômade dos caçadores coletadores.
Essa brilhante adaptação a um meio ambiente que mudava exigia mais disciplina e planejamento: apenas a quantidade de animais que pudesse ser renovada a cada ano poderia ser sacrificada. O futuro - pela primeira vez - ficava incerto. A agricultura certamente começou com a domesticação de animais, o que exigiu um tipo diferente de coesão, organização e colaboração. O preparo e plantio do solo vieram depois, causados por outras pressões, que a domesticação dos animais desencadeou.
(continua)
++++++++++
Obs:diante de minhas críticas aos cursos de administração e às imposturas da gurulândia, leitores me pediram recomendações de livros. Um deles me provocou, perguntando que conteúdo eu especificaria se tivesse de desenhar um curso básico de gestão. A seqüência de posts que começou no anterior responde a isso

26/02/2008

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A empresa é um "animal" que vem evoluindo desde tempos ancestrais
A melhor maneira de combater a farsa é entender do que estamos falando. Para entender a empresa de hoje - sua alma, e sua técnica - vamos começar com as de ontem.
A empresa é um animal que veio evoluindo. Começou com o “bando” de caçadores-coletadores e veio dar nas GE, Toyota, Wal-Mart... Vou contar um pouco como foi.
Essa genial inovação a que chamamos empresa é uma ferramenta, uma tecnologia que produz uma solução muito eficiente para um problema complicadíssimo: coordenar e motivar pessoas que realizam tarefas especializadas com vistas a um objetivo comum. Coordenar e motivar. Para isso, as pessoas têm de perceber que vale a pena deixar seu (natural) auto-interesse de lado e entrar num jogo maior. Um jogo de “soma não zero”, como se diz. Um jogo em que todo mundo ganha.
Ao transcender a lógica utilitária “soma zero” - (eu só ganho se você perder) -, que era o que predominava fora dos clãs familiares, a vida civilizada começou. Começou sem reflexão, sem ninguém planejar, motivada pelo acaso da descoberta de um truque que facilitava a sobrevivência. Ou melhor, um truque que passou a condicionar a sobrevivência - se não o adotasse, você não sobreviveria. Esse "truque" foi a agricultura. Todo mundo, com o tempo, acabou adotando a agricultura, porque não adotá-la significava não ter o que comer, ser assassinado ou virar escravo de alguém que a tivesse adotado. Vamos ver.
Próximo post: o que a ciência diz - o conto da agricultura.

26/02/2008

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A gênese da gurulândia
Há 25 anos, temas empresariais não eram populares - (ao contrário de fofocas sobre artistas, intrigas hollywoodianas, quem está namorando quem etc., assuntos que sempre tiveram veículos dedicados a explorá-los). O dia-a-dia empresarial era considerado chato, árido, nada sexy. Simplesmente não era notícia.
-Os anos 80 mudaram isso pelos seguintes motivos:
a- Surgiram os jovens empreendedores da era digital. Com eles, o charme de heróis inteligentes e vibrantes (alguns até bonitos), que enriqueciam graças à sua inteligência, coragem e visão, explorando novas tecnologias. Que histórias! Que matérias! Quem resiste a um enredo assim: jovens-gênios-trabalhando-numa-velha-garagem-e-produzindo-o-primeiro-PC-ou-o-Google-ou-o-YouTube-ou...?
b- O Japão ameaça os EUA. O mundo empresarial americano entrou em depressão nos anos 80 por causa da “ameaça amarela”. Empresas americanas perdiam a competitividade. O livro In Search Of Excellence (Tom Peters e Bob Waterman, 1982) captura isso e oferece uma saída, ao mostrar que ainda havia grandes empresas americanas contando histórias de sucesso que poderiam inspirar a todos. A narrativa do In Search... tem um foco mais humanista, mais centrado em valores, menos racionalista. O livro é uma delícia. Histórias muito bem contadas, quase romanceadas. Tudo exagerado, falso ou inventado (como se veria depois), mas quem resiste a uma história bem contada? Adoramos final feliz. Histórias “pra baixo” não vendem. In Search of Excellence marca o início da fase “líderes-carismáticos-construindo-sucessos-épicos-com-grande-apelo-para-as-massas”.
c- Globalização/privatização/competição/abertura para o mundo amplificam muito a noção do risco individual. Todos temos mais medo. Emprego para a vida toda vira coisa do passado. Empresas surgem e morrem com freqüência muito maior. O medo e a insegurança estimulam o surgimento da auto-ajuda empresarial - livros e revistas que prometem “a coisa certa” para aliviar a tensão e fazer todo mundo relaxar. Quem resiste?
O que faz sucesso no universo da auto-ajuda empresarial são três coisas:
1- Relatos sobre pessoas com qualidades, digamos, mais espirituais (“líderes servidores”, “líderes nível 5”, “Jesus CEO” etc..). É bacana ouvir que “ser bom”, num mundo tão caótico, ainda faz diferença. É muito bom ouvir que os valores que aprendemos em casa (respeito, honestidade, integridade etc...) podem levar ao sucesso num mundo cada vez mais inseguro. Não tem nada a ver com nada, mas tem grande apelo comercial.
2-Heróis corajosos, guerreiros destemidos dispostos a correr riscos. Cowboys corporativos misturados com “Exterminadores do Futuro” nada “espirituais”, à Schwarzenegger. Decisão. Sangue frio. Vocês conhecem o estereótipo: Jack Welch é típico.
3- Histórias sensacionais de empresas de sucesso, cujas culturas foram construídas por líderes muito especiais. Vitórias improváveis. Livros que mostram que certos atributos de liderança, foco etc... levam ao desempenho superior.
Surgem as “Empresas mais Admiradas”, “As melhores empresas para se trabalhar”, “As Empresas mais receptivas às minorias”, “As mais verdes”, “As mais sociais” etc...
Estou pensando em escrever um livro sobre as empresas que você deve mandar logo à mie..da (como diria o Hugo Chávez).
(continua em algum post aí para a frente)

25/02/2008

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Comentando (em azul) alguns comentários
Ricardo De'Carli:[Sobre meus posts sobre Arno Penzias]-No site Física.net tem um documentário muito bom falando a respeito (http://www.fisica.net/videos/) cujo nome é 'Nosso Universo: Criação'.
Taí a dica do Ricardo.Eu fui lá.O site é bacana.
++++++++++++++
Raul diz:Clemente, você iria gostar do Fórum Mundial de Ciências que a HSM fez em NY em 2006. Fui para lá só por causa deste evento que foi de alto nível. Os temas eram Nanotechnologia, Neurociências, Matemática, Inteligência Artificial, Complexidade, Tecnologia da Comunicação, Biotecnologia etc - só gente fera. Existem gurus e gurus...
Acho que eu gostaria mesmo. As coisas da HSM são sempre de alto nível como já disse aqui..
Não critico quem contrata gurus e não me importo que me chamem de guru (o que ocorre às vezes).
Minha crítica é à não existência de pensamento crítico em relação aos gurus.

++++++++++++++++
Rafael diz:Podemos dizer que a decisão do Shapiro foi certa (devido às informações que ele tinha) uma vez que o mercado não estava pronto? Será que ele não tinha essas informações? A decisão de lançar a new coke por exemplo não seria uma decisão correta levando em consideração as informações disponíveis na época tb?
Uma decisão só pode ser declarada errada,à luz das informações disponíveis no momento em que ela foi tomada.Se você me pergunta se deve aceitar fazer roleta russa por US$10milhões,eu digo:não faça isso! Você ignora meu conselho , aperta o gatilho,nada acontece, e você embolsa os US$10milhões.Sua decisão foi errada, meu conselho foi certo.Independe do resultado.O resultado só podemos saber depois.
++++++++++++
Camilo Telles: Sobre a questão do processo correto. Veja o livro do Rubin, secretário do tesouro americano na época de Clinton e operador de mercado. Ele sabe que toda decisão tem um fator acaso, logo o mais importante não é o resultado e sim o processo. A pergunta no post-mortem é:
“Olhando em retrospectiva, com os dados que tinhamos naquele momento, tomamos a decisão certa?" É uma questão recorrente no livro dele, inclusive quando ele discute com os assessores mais próximos a probabilidade de sucesso do primeiro pacote de ajuda do FMI para o Brasil. Ele pergunta em termos de probabibilidade para os assessores....
"In an Uncertain World: Tough Choices from Wall Street to Washington " - Robert Rubin
Excelente.É exatamente isso.Conhecia o pensamento de Rubin,mas não li o livro.Já comprei pela Amazon.
+++++++++++
Luigui Moterani: Agora surgiu uma dúvida : é possível extrair lições dos erros das empresas? Tipo a New Coke, Ford Edsel, Computadores da Xerox, Sony Betamax, etc, etc... ?
Só se havia informação suficiente antes da decisão ter sido tomada,se não,não.O que se faz normalmente é encaixar historinhas para explicar o sucesso e o fracasso após o fato.Isso não tem valor nenhum.Veja meu comentário sobre a roleta russa acima.
+++++++++++++
Anônimo:Vc diz que todas as empresas bem-sucedidas têm um sistema especialmente engenheirado pra impedir que os viéses pessoais falem mais alto. E a versão da ciência e do cientista. Será que não e isto, então, que as empresas de sucesso (sic!!!) tem em comum? Será que o sistema não permite que elas sejam empresas feitas para durar (sic outra vez)?
Empresas não são feitas para durar.O fato de ter sistemas bem “engenheirados” não garante o sucesso.As que têm sucesso, têm sistemas assim (às vezes;nem sempre ), mas nem todas que têm sistemas assim têm sucesso.É o máximo que podemos dizer.
+++++++++++++++
Anônimo:Clemente, você cantaria “I’ll Survive” numa palestra se te oferecessem o cachê do Jim Collins- US$150mil?
Hmmmm, deixa eu ver...Olha anônimo,acho que sou incorruptível.Não acredita? Ofereça-me 150 mil! Pode ser em Reais mesmo! Ofereça-me, ofereça-me!!!

24/02/2008

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