Clemente Nobrega, pesquisador de gestão e estratégia, autor de Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?, entre outros livros, e do site clementenobrega. com.br.

 
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Um cientista chamado Robert Axelrod descobriu o que nos faz cooperar apesar disso não ser natural.

Para investigar o dilema do prisioneiro ele teve uma idéia genial :promoveu um torneio em que os participantes apresentariam programas de computador representando os prisioneiros.
Os vários programas seriam confrontados aos pares, e, cada um escolheria trair (dedurar) ou cooperar (calar) em cada encontro.
Havia um detalhe porém: em vez de jogar uma única vez , cada par de programas jogaria um contra o outro duzentas vezes seguidas.Já sabemos:em um encontro só, a estratégia certa é trair (dedurar).Encontros repetidos seria uma maneira mais realista de representar o tipo de relacionamento continuado a que estamos acostumados na vida real.
Note que num dilema do prisioneiro, o melhor para cada jogador é trair ao mesmo tempo em que o oponente coopera (a tentação de trair tem que ser grande). O pior para cada jogador é quando ele coopera enquanto o outro trai. Finalmente, a recompensa pela cooperação mútua tem que ser maior que a punição pela traição mútua. Axelrod atribuiu pontos a cada situação dessas. Venceria o programa que acumulasse mais pontos depois de enfrentar cada adversário duzentas vezes seguidas.



Todos os tipos de estratégia poderiam ser representados: por exemplo, um programa adotando uma estratégia "generosa" que sempre perdoasse as traições do outro. Uma estratégia "cínica", que perdoasse traições até um certo confronto (até a centésima partida, digamos), dando a impressão de ser boazinha, e, depois, traísse sistematicamente até o fim. Uma que sempre traísse. Uma que traísse e cooperasse alternadamente.Uma outra que traísse e cooperasse ao acaso... Enfim, as possibilidades eram infinitas.
Qual estratégia acumulou mais pontos?


03/05/2008

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O jogo que explica os jogos-“O Dilema do Prisioneiro

A raiz dos conflitos de interesse é a tendência de maximizarmos o ganho individual, mas, tem de haver algo além, se não, a vida em sociedade seria impossível. A questão é como demonstrar como e por que, estratégias cooperativas podem predominar, apesar de não serem “naturais”.
Essa questão é muito bem captada por um jogo que se chama "O dilema do prisioneiro”- formulado e estudado na década de 1950 por matemáticos de Princeton, a mesma universidade de Einstein, Von Neumann e Nash.
Parece uma coisa bobinha, mas não é não.O jogo capta muitíssimas situações de interesse prático e pode ser aplicado em qualquer situação em que há uma tentação de aumentarmos nosso ganho individual às custas do ganho coletivo.
É assim: dois criminosos praticam um crime juntos. São presos e interrogados separadamente.A polícia não tem provas contra eles, e a única forma de condená-los é um acusar o outro. Cada prisioneiro tem uma escolha: calar ou acusar o companheiro (cooperar ou trair). Se os dois permanecerem calados, ambos serão postos em liberdade.



A polícia, querendo uma solução rápida para se livrar da pressão da opinião pública, fornece alguns incentivos: o prisioneiro que denunciar o outro ganha a liberdade, e ainda por cima leva um prêmio em dinheiro. O outro pegará prisão perpétua, e ainda terá de pagar o prêmio ao delator. Se os dois acusarem-se mutuamente, os dois serão condenados. Qual a escolha lógica?
Ambos começam a pensar.
O melhor a fazer é calar, pois ambos serão soltos. Mas o prisioneiro A sabe que B está pensando a mesma coisa, e sabendo que não pode confiar no colega, percebe que o menos arriscado é denunciar B. Sim, pois se esse calar, A estará livre de qualquer maneira (e com o dinheiro da recompensa). Se o outro denunciá-lo também, bem.... A teria de cumprir pena de qualquer forma, e pelo menos não ficará com cara de bobo na prisão.
Acontece que B pensa exatamente da mesma maneira. Resultado: ambos são levados (pela fria lógica) ao pior resultado possível: traição mútua e prisão.
Essa é a lógica irrefutável, é o racional a fazer, mas nós não agimos assim. Por que não?


02/05/2008

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A elevação do Brasil à categoria “investment grade” é um certificado de confiabilidade como a cauda de um pavão



Como vamos ver mais alguns posts à frente(aguardem,aguardem!) reputação de confiabilidade é essencial para que jogos de soma não zero possam se instaurar. Tudo a ver com a teoria dos jogos.
O animal humano evoluiu incorporando ao seu comportamento e à sua anatomia atestados de confiabilidade. Mas não é só entre humanos que isso é verdade.Vejam a cauda do pavão.
Um dos quebra-cabeças mais intrigantes da evolução é o seguinte: por que certas espécies (como pavões e aves do paraíso) usam ornamentos naturais tão espalhafatosos? A resposta é: esses ornamentos são provas de saúde.
Eles demonstram para as fêmeas que vale a pena copular com seus portadores, pois ,sendo saudáveis, não há risco de que gerem crias doentes. Um ornamento como a cauda de um pavão tem de ser custoso. São pesados, dificultam a movimentação (atraem predadores), enroscam-se nos arbustos. É como se o pavão estivesse dizendo: ”vê como sou forte? Posso sobreviver, apesar dessa cauda”.
A cauda,como o investment grade, é um display de confiabilidade.
As fêmeas seguem uma regra simples: “procure o macho com a cauda mais espalhafatosa. Se um macho não está usando essa ornamentação é por que tem algo a esconder”.
Quer dizer, os machos TÊM de provar que são confiáveis. Suas caudas são um exemplo do que poderíamos chamar de propaganda honesta. Foram forçados a isso pelo processo da evolução. Fêmeas com mais “personalidade”, que ousaram se desviar do critério e escolheram parceiros com caudas discretas, geraram filhotes com caudas discretas, e esses, por não serem considerados atraentes, não foram escolhidos para copular, e não deixaram crias.
Quando perguntarem a você o significado desse tal “investment grade” responda:nos deram uma cauda de pavão.

01/05/2008

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Que tipos de jogos nos interessarão?



A grande contribuição de Von Neumann foi nos chamados jogos de soma zero.
É quando a vitória de um jogador ,significa, necessariamente, a derrota de outro- como no xadrez ou no jogo da velha;ou seja:para alguém ganhar, alguém tem de perder. Futebol, tênis, xadrez, box...
Em jogos de soma zero, não há possibilidade de cooperação. Nessas circunstâncias, Von Neumann provou que há sempre um curso racional de ação para cada jogador (lembre-se:um jogador age racionalmente quando tenta maximizar a “utilidade” que busca no jogo,mesmo que aja assim de forma inconsciente).
Von Neumann não estava interessado em jogos como o xadrez, porque “esse tipo de jogo nada tem a ver com a vida real”, segundo ele. Pôquer era algo mais próximo do que queria tratar, porque, no pôquer, o blefe é mais fundamental. Ele estava interessado na trapaça, nas pequenas táticas de dissimulação, na desconfiança, na traição.
Sua teoria dos jogos lida com seres racionais e desconfiados querendo “se dar bem”.
Pense no jogo que um goleiro joga contra um batedor de penalty.
O batedor tem todo interesse em que o goleiro pense que ele vai chutar num certo canto, e então, chuta no outro. Dissimular é uma estratégia racional para o batedor. O mesmo vale para o goleiro, que tentará fazer com que o batedor acredite que ele se atirará para um certo lado. Dissimulação e fingimento são parte do talento que eles têm que ter.
Relações "não zero" só se instauram quando os jogadores percebem-se claramente “no mesmo barco”, se não, não.
Em 1970, quando os três astronautas da Apollo XVIII tentavam trazer a nave de volta à Terra,eles estavam “jogando” um jogo totalmente “não zero”: ou todos ganhariam ou todos perderiam.
“Na vida real, porém, as coisas não são tão preto no branco. Um vendedor e um potencial comprador, dois partidos no parlamento, dois parceiros comerciais, dois amigos , marido e mulher, pais e filhos - têm algumas vezes-mas nem sempre-uma zona comum de interesses. Se essa zona comum é explorada, então a relação pode ser, "não zero" e, portanto, “ganha-ganha”. Trabalhar a “zona comum”, construí-la, cultivá-la, reforçá-la, ampliá-la, é o papel de quem esteja interessado nos ganhos (enormes) que são conseqüência de relações não zero (numa sociedade,numa empresa). A chave para a gestão de pessoas é fazer o que é necessário para que os jogos em que estamos envolvidos na empresa estejam o mais possível para o lado "não zero" do espectro.
Essas são sempre as relações mais interessantes e enriquecedoras para todos, mas também as mais difíceis por que, repito, não se instauram naturalmente.
Permanece a questão:como aprendemos a superar o jogo (instintivo) de "soma zero e aprendemos a cooperar? Sobre isso há dois livros que recomendo:

30/04/2008

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Comentários e dicas sobre Von Neumann

Há um excelente livro sobre ele e sobre a teoria dos jogos em geral:

Prisoner’s Dilemma - John Von Neumann, Game Theory and the Puzzle of the Bomb"- William Poudstone. Anchor Books,1992.
Nosso consultor para livros raros-o leitor deste blog Emanuel Murdoch-talvez possa dar alguma dica. Fala aí,Emanuel!
++++++++++
Respondendo a uma pergunta:
não saberia dizer o que Von Neumann teria a nos ensinar em relação á inovação,mas arrriscaria sugerir que ele é um exemplo de inteligência-capacidade de enxergar princípios gerais,abstratos-e compactá-los em formulações e proposta práticas.
++++++++++
Excelente dica do leitor Flavio Augusto;
Recomendo a todos http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/freakonomics/2008/04/29/ult3431u52.jhtm
Aproveitem.Está em português.

30/04/2008

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Quem foi John Von Neumann

O personagem principal do filme “Uma mente brilhante”, é John Nash- cientista famoso por ter usado a matemática para descrever conflitos de interesse.
Nesse campo, porém, Nash não foi o único e nem foi o maior. Foi o segundo maior. O grande craque foi outro John- o húngaro radicado nos EUA, John Von Neumann (mesma universidade de Nash e Einstein: Princeton).

Seus fascínio estava em suas contradições-homem charmoso e educado, era chamado de cínico, excêntrico e genial.
Em 1948 foi contratado pela RAND Corporation, um instituto dedicado a assuntos estratégicos ligado à inteligência militar americana. No ano seguinte, a União Soviética explodiria sua primeira bomba atômica e a guerra fria iria começar. O pessoal da RAND queria que Von Neumann passasse a eles as idéias que tivesse sobre estratégia militar “enquanto estivesse se barbeando”-esse era todo o tempo que ele precisaria dedicar à RAND.
Não se sabe se foi durante o barbear, mas foi Von Neumann que teve o insight de que situações de conflito de interesse podem ser tratadas matematicamente, e, a partir daí, desenvolveu o ramo da matemática aplicada chamado teoria dos jogos.
Esteve metido ativamente em muitos (todos?) dos maiores desenvolvimentos científicos e tecnológicos do século XX- da física quântica `a bomba atômica e ao computador. Antecipou a idéia de que a vida, biológicamente, é um processo computacional, isto é: é algo que acontece a partir do processamento de informação codificada-prevendo assim a existência de uma estrutura como a do DNA, que seria descoberta logo em seguida.
Foi consultor da IBM, e foi ele quem definiu que essa “coisa” que hoje chamamos “computador” seria uma máquina que processaria instruções a partir de softwares - não uma engenhoca programada direto via hardware (hard-wired).
Previu também que ela seria digital, não analógica, e que armazenaria dígitos binários, não decimais. Já disseram que a IBM deve metade de sua fortuna a ele. O folclore sobre sua figura é espantoso. Numa época em que Einstein em pessoa trabalhava em Princeton, ele (Von Neumann) foi considerado o melhor “cérebro do mundo”.
Dizem que o personagem Dr.Strangelove (interpretado por Peter Sellers) no filme “Dr. Fantástico” , foi inspirado em Von Neumann. Não ganhou prêmio Nobel, mas seu “conjunto da obra” é muito mais impressionante que o de Nash. Sua vida pessoal, nas mãos de um roteirista e diretor competentes, daria um filmaço. Mulherengo, festeiro, boêmio, cínico, hiper-racional, quando contraiu o câncer que o mataria em 1958, converteu-se ao catolicismo. Talvez considerando essa a decisão mais lógica, dadas as circunstâncias. No seu leito de morte estavam o secretário de defesa dos EUA , mais os ministros do exército e marinha. Até morrer foi um militante do estabilishment industrial – militar americano.
Sua marca registrada foi aliar a genialidade matemática a questões práticas. Jamais ficou prisioneiro de dilemas morais. Nunca (ao contrário de outros cientistas, como Einstein) demonstrou a menor culpa por ter participado ativamente do programa que levou à primeira bomba atômica.
Analisando a polarização EUA – União Soviética, no início da guerra fria, falou: :”Se você me sugerir bombardear amanhã eu respondo, por que não hoje? Se você propuser hoje às cinco horas eu respondo, por que não à uma? “.
Quando fez essa recomendação os russos ainda não tinham a bomba. Essa era a decisão racional, para evitar um jogo de consequências imprevisíveis mais tarde.
Escapou da revolução e do terrorismo na Hungria, e mais tarde, do nazismo. Sua relação com a mulher,Klara, foi de conflito permanente. Em suas cartas para ela fala de traição, retaliação e desconfianças sem limites. Alguns sugeriram que o cinismo pessoal de Von Neumann teria influenciado a teoria dos jogos, mas é errado supor que ele buscasse base científica para suas inclinações pessoais. Ele nunca teria desenvolvido a idéia, se não tivesse percebido que era um campo de grande potencial de desenvolvimento.
Era inteligente demais para isso.

28/04/2008

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Tudo é jogo

Imagine qualquer situação em que haja agentes querendo obter o máximo possível de uma certa coisa.
Um agente pode ser uma empresa querendo o máximo de lucro, uma espécie de bactéria “querendo” “tomar” um organismo,uma pessoas buscando a melhor relação custo-benefício para uma certa compra,um país querendo o máximo de vantagem em suas transações comerciais,um político querendo o máximo de votos numa eleição etcc. Você entendeu.
Vamos chamar esses agentes de “jogadores”.Ou seja,na busca por alcançar o “mais possível” de alguma coisa (maximizar um ganho), os agentes têm que levar em conta o comportamento e interesses de outros agentes presentes em seu ambiente,portanto, comportam-se como se estivessem num jogo.
[Nenhuma decisão relevante acontece no vazio-o que eu decido fazer ,influencia e é influenciado por comportamentos de outros.
Lembre-se:o padeiro quer maximizar a quantidade de pão que vende,mas não pode usar matéria prima estragada,se não,os fregueses não voltam, e ele quebra. Os interesses dele e de seus clientes têm que ser acomodados].
As preferências dos jogadores são chamadas,tecnicamente, de utilidade. Utilidade é o que os jogadores querem no fundo de suas almas. Aquilo que “tanto mais eu tiver melhor”.
A utilidade que você atribui a um certo resultado é que determina sua estratégia no jogo.
Pense na utilidade como sendo pontos que você quer acumular. Se você joga pôquer valendo palitos de fósforos, então a utilidade é a quantidade de palitos que você junta. Quando se joga por dinheiro, ele é a utilidade. A utilidade para os políticos é sempre o poder. A utilidade para uma empresa privada é o lucro.Utilidade para um gene é o maior número possível de cópias de si mesmo,para uma bactéria é a maior quantidade dela que seja possível num organismo.
++++++++++
Acompanhe os próximos posts que você vai entender como agentes egoístas,motivados,basicamente pelo auto-interesse, são levados a cooperar de formas sofisticadas. A civilização se construiu assim
Não quero ser exagerado,mas um autor que respeito uma vez escreveu:
"de tudo o que há registrado sobre os humanos ..possivelmente só Deus,o amor,e nossas batalhas interiores mais agudas, tenham recebido atenção comparável ao tema "conflito de interesses""

Acho incrível que os maiores insights sobre esse tema tenham sido obtidos,recentemente (anos 80),a partir de computer games,como vou mostrar.

28/04/2008

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Vamos ver (a partir do próximo post,juro!) as simulações que nos permitiram entender porque o mundo não é dominado pelo egoísmo e auto-interesse selvagens.
Mas antes, para se preparar, leia abaixo pela ordem:


-A empresa de responsabilidade limitada é uma tecnologia para diluir riscos
-A empresa de responsabilidade limitada é uma pessoa separada, diferente, das pessoas que a controlam ou trabalham nela.
-Dada a natureza humana, é certo que se não tivermos um mecanismo para impedir as pessoas de fraudarem, elas vão fraudar.
-As empresas funcionam e geram riqueza e prosperidade porque há um mecanismo que não era percebido na época de Adam Smith: o mercado

27/04/2008

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A empresa de responsabilidade limitada é uma tecnologia para diluir riscos.

Esse tipo de empresa-em seu formato ideal- tem muitos donos, de modo que nenhum deles, individualmente, corre um risco excessivamente grande.
Na verdade, ela pode ter um número ilimitado de donos, cada um entrando com um pedacinho do capital, e sendo dono de uma fração igualmente pequena da empresa (mas todos sendo donos “individualizáveis”. Todos ganham dinheiro individualmente se a empresa vai bem. Todos ganham muito dinheiro se a empresa vai muito bem.Pergunte quanto ganhou aquela secretária que investiu US$ em ações do Wal Mart nos anos 60)).
Essa foi a inovação “matadora”.
Uma inovação na forma de organização das empresas. Limitando os riscos individuais, e oferecendo possibilidades de ganho atraentes (ah.. a ambição humana!) – o modelo chamado empresa de responsabilidade limitada decolou.
A adoção (de braços abertos) desse modelo pelos americanos de um modo mais rápido e natural do que ocorreu com os europeus, é considerada umas das maiores causas da hegemonia dos EUA no século XX.
Esse arranjo foi descoberto por tentativa e erro, foi uma idéia genial,mas não foi fruto da genialidade de ninguém em particular.

27/04/2008

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A empresa de responsabilidade limitada é uma pessoa separada, diferente, das pessoas que a controlam ou trabalham nela

Como os donos das frações da empresa (acionistas) estão, na prática, fora dela, a lei tinha de arranjar alguém - algum outro tipo de pessoa-que assumisse a responsabilidade pelo que a empresa fizesse no dia-a-dia.
Foi então criada para a “empresa”,uma personalidade e uma responsabilidade jurídicas de uma pessoa.
Para todos os efeitos a empresa é uma outra pessoa!
Veja que coisa: foi preciso criar uma outra pessoa-(uma pessoa virtual!)-cuja única razão de existir é proporcionar ganho aos seus milhares e milhares de donos individuais de carne e osso, para que a empresa pudesse crescer com eficiência. Gente de verdade não consegue isso, só essa “pessoa virtual”.
- Com toda a resistência inicial que houve (e houve muita) a essa pessoa,cuja personalidade já foi comparada à de um psicopata (Ver livro “The Corporation” de Joel Bakan)-a empresa de responsabilidade limitada foi uma inovação que possibilitou um tremendo crescimento econômico.
Mas tem uma coisa: se cada um dos acionistas é dono só de um pedacinho, que interesse eles vão ter em ficar checando se a empresa está sendo bem administrada ou não? Pelo que vimos, e pelo que aprendemos da natureza humana, um arranjo desses acabaria virando uma espécie de estatal. Seria mais ou menos assim: eu que sou acionista minoritário tenho muito a ganhar se a empresa crescer e lucrar, mas tenho pouco a perder se der errado. Não vou ficar perdendo meu tempo checando como ela é dirigida no dia-a-dia.
Então como é que as grandes empresas certificam-se de que não estão sendo dilapidadas?

27/04/2008

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Dada a natureza humana, é certo que se não tivermos um mecanismo para impedir as pessoas de fraudarem, elas vão fraudar.

Então,como é que e empresa de responsabilidade limitada dá certo,se seus donos não as controlam no dia-a-dia?
Um gênio como Adam Smith (o patrono da ciência econômica) percebeu logo isso.
Ele não acreditava que a empresa de responsabilidade limitada pudesse funcionar porque tinha uma falha que ele considerava fatal: os gestores da empresa não eram gestores de seu próprio dinheiro, eram “gestores do dinheiro dos outros”. Por isso, não se podia esperar que tomassem conta desse dinheiro com a mesma “vigilância ansiosa” com que tomam conta do seu próprio.
Adam Smith era pessimista quanto à empresas de responsabilidade limitada, por que achava que elas seriam automaticamente mal gerenciadas: ”o que vai prevalecer é o desperdício e a negligência”, ele dizia.
Adam Smith foi um gênio, grande conhecedor da natureza humana, e ele estava certíssimo à luz da informação que tinha (lembre-se sempre: uma decisão/opinião só pode ser declarada errada á luz das informações que existiam até o momento em que foi tomada, nunca depois).
Mais tarde ficou demonstrado por que Adam Smith não podia estar certo em sua época.
O valor total das ações de todas as empresas do mundo em 1999 era 35 trilhões de dólares. Se essa forma de organização fosse tão ruim como Smith suspeitara, elas já teriam sumido, dando lugar, talvez, a empresas estatais, cooperativas ou parcerias de outro tipo. Mas não, as corporações são a única forma razoavelmente eficiente para se tocar os processos de produção de larga escala essenciais para se obter ganhos de produtividade relevantes.

27/04/2008

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As empresas funcionam e geram riqueza e prosperidade porque há um mecanismo que não era percebido na época de Adam Smith: o mercado.

É o mercado que força os gestores das empresas a fazerem “a coisa certa”, se não fazem, as pessoas não compram seus produtos, ou então vendem suas ações.
Ou seja, é o mercado que controla o gestor.
Ele acaba ficando enquadrado porque se não produzir o que o mercado espera, está fora. Todos sabem o que acontece quando um CEO não “entrega resultado”: ele é demitido pelos representantes dos acionistas (o conselho de administração das empresas).
É uma vida dura: a cada trimestre, os gestores têm fazer uma previsão de ganhos para o mercado. Se eles não vierem,acende a luz amarela. Daí para a vermelha é um pulo.
É isso. É a tensão dos gestores pressionados pelos acionistas (via mercado lá fora), que gera o mal estar e infelicidades típicos das empresas(mesmo das mais bem sucedidads).
Eu conheço esse mundo.Trabalho para ele de forma independente(de fora dele),mas ,posso ser sincero?Espero não ter de voltar para dentro dele.
É esse jogo-um grande jogo- que desenvolvimentos da ciência moderna permitiram simular.É disso que vou tratar nos próximos posts.

27/04/2008

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Historicamente sempre houve má vontade em relação “aos grandes” do mundo dos negócios

Do clamor contra os chamados robber barons do século XIX, aos grupos anti-globalização de hoje, a opinião pública em geral desconfia do big business.
Mas, se sempre houve fraudes e exploração por parte dos grandes (ex:Enron), a má vontade tem sido largamente motivada também por ignorância de alguns fatos simples. O principal é o que vimos-uma coisa ecnômicao: o grande tem vantagem porque gasta menos para fornecer o mesmo que um pequeno.
No final do século XIX(período que marca a consolidação da grande empresa) as empresas que conseguiam crescer começaram a ver-se sob pressão pública pelo fato de... serem grandes. Não era justo, pensava-se, que ganhassem mais só porque eram maiores. Woodrow Wilson, em campanha presidencial nos EUA (em 1912) afirmava:..”não aceito a idéia de que ser grande seja necessário para a economia e a eficiência.. esses grandes varejistas são uns ratos!! Eu vou chamar os marines”.
Diziam que se as grandes cadeias de armazéns da época (precursoras dos Wal Marts e Carrefours de hoje) estavam vendendo por menos, era porque algo fundamentalmente injusto estava ocorrendo com o sistema. A reação negativa do público à Standard Oil de John Rockefeller seguiu o mesmo padrão. Rockefeller percebeu que colocar exploração, produção, transporte, refino, e venda sob uma mesma estrutura corporativa, iria levar à operação mais eficiente e de menor custo.
Os ataques que o pessoal do big business recebia, eram motivados pelo sentimento geral de”.. covardia que eles faziam com os pequenos”.
Ninguém entendia que a possibilidade de oferecer preços menores é conseqüência, não causa, de poderio econômico.

26/04/2008

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Paul Seabright no excelente “The Company of Strangers-A natural History of Economic life”, resume o que temos visto:


“.. a herança genética do Homo sapiens, que veio se desenvolvendoo durante os 7 milhões de anos que nos separam do nosso último antepassado comum com os chimpanzés, nos equipou apenas para ter sucesso como caçadores-coletadores.
Os humanos cooperavam uns com os outros na caça e na guerra contra bandos rivais, mas essa cooperação só acontecia dentro de grupos de parentes próximos.
Foi então que uma das espécies bandidas, mais agressivas e traiçoeiras em todo reino animal, decidiu deixar de ser nômade e fixar-se na terra. Em não mais do que um piscar de olhos, no tempo evolucionário, essas criaturas suspeitas e não confiáveis-esses “macacos tímidos e assassinos”- desenvolveram redes de cooperação de alcance extraordinário. Redes complexas que, para funcionar, dependem da confiança entre estranhos. Quando você pensa nisso vê que é algo extraordinariamente improvável
”.
Mas aconteceu. Como e por que aconteceu? É aqui que a ciência moderna tem algo de espetacular a propor.


PS- não sei se o livro de Paul Seabright saiu no Brasil,acho que não.Nossas editoras por aqui preferem coisas mais “profundas”, entende?
”Líder servidor”, ”Jesus CEO”,”Gestão segundo os golfinhos”, essas coisas.


26/04/2008

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-Esse negócio de “ganho de produtividade” pode soar como coisa de economista, mas é isso que gera riqueza.

Fazer mais com menos esforço.Ganhar em escala.
Pense no seguinte: há dez mil anos o PIB do mundo era zero, hoje é de vários quatrilhões de dólares. Essa riqueza veio da reconfiguração de coisas que sempre estiveram por aí ,não vieram do espaço extra-terrestre (exemplo:o chip de silício é “areia da praia” reconfigurada. Ok,estou exagerando,”pero no mucho”).
É sempre uma ferramenta-uma tecnologia-que torna viável a reconfiguração das atividades nas quais os humanos se engajam. A empresa em si é uma tecnologia dessas –(assim como a bússola, a máquina a vapor, a eletricidade, o telégrafo, a estrada de ferro,a linha e montagem a Internet...).
A empresa moderna é a tecnologia que produziu a reconfiguraçã das formas de trabalho em grupo existentes antes.
Vimos que a empresa privada tende a ser mais eficiente que uma de “todo mundo”,mas isso não basta -há limites para o que um dono só (ou uma família só) pode fazer.
É o seguinte: raramente só uma pessoa ou família, tem o capital suficiente para crescer. Ser grande é muito importante para gerar produtividade. Torna mais fácil ficar rico, e ficar rico –já sabemos- é uma motivação mais do que suficiente para o animal humano.
Basicamente: o grande, por ser grande, tem custos menores que o pequeno,portanto, pode oferecer o que o pequeno oferece,a um preço menor.Superficialmente é o seguinte: se você faz muito de uma mesma coisa, você pode fazer essa coisa com custos menores, vender mais e ganhar mais do que ganharia se fizesse pouco da mesma coisa.
Mas, para produzir muito, você tem que ser grande -tem que ter grandes estruturas de fabricação, de atendimento ao cliente, de distribuição etc..Henry Ford entendia isso: quando ele começou, no iniciozinho do século XX, seu modelo T custava cerca de US$800,00. Por volta de 1920,graças a ganhos de escala, ele estava custando menos de US$300,00, e Ford estava muito mais rico.Em business o grande mata o pequeno.O Wal Mart mata a vendinha do seu Manoel,não o contrário.
Leia os jornais de hoje:a Cosan comprou a Esso-a produtora de álcool vai entrar na distribuição também;quer crescer rápido.Todo dia tem uma dessas.É da natureza do “animal”,entende?
Quando você ouvir alguém dizer,por exemplo, que é contra o agronegócio e prefere a agricultura familiar,pode cair na risada.Essa pessoa está defendendo alimentos mais caros.O grande produz por menos.
Há duas opções: ou aceitamos ter empresas de poucos donos (famílias ou grupos pequenos de sócios)-mas que serão limitadas em sua capacidade de crescimento, ou damos um jeito de motivar “estranhos”, de fora da família, a colocar seu dinheiro na empresa para fazê-la crescer mais rápido.
Foi essa a inovação decisiva que produziu a mutação “matadora” na espécie do “animal”: a empresa de responsabilidade limitada, da qual falarei no próximo post.
Repare só: humanos “naturalmente” sempre detestaram estranhos, se colaboramos com eles hoje (se não os atacamos e matamos quando cruzamos com eles),é porque algo muito forte- durante o processo evolucionário-nos convenceu que isso era melhor para nós.

25/04/2008

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