Clemente Nobrega, pesquisador de gestão e estratégia, autor de Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?, entre outros livros, e do site clementenobrega. com.br.

 
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A regra do jogo que nos tornou humanos?

De todos os programas participantes no torneio de Axelrod, alguns continham estratégias muito complexas, mas o vencedor, para surpresa geral (do próprio Axelrod,inclusive), foi um que adotava uma estratégia muito simples chamada TIT FOR TAT, que em tradução livre significa "olho por olho".
TIT FOR TAT é um programa de apenas quatro linhas. Sempre começa cooperando, e depois faz exatamente o que o oponente tiver feito no lance anterior : trai, se tiver sido traída, e coopera caso tenha obtido cooperação.
TIT FOR TAT tem quatro características (entre parêntesis está a terminologia usada no trabalho original em ingles):
1- E´ "bacana" (nice)- nunca trai primeiro;
2-E´ "vingativa” (tough)-nunca deixa passar uma traição sem retaliar na mesma moeda no lance seguinte.
3-É “generosa” (forgiving) .
Se após a traição -e consequente retaliação,-o oponente passar a se comportar bem, TIT FOR TAT esquece o passado e se engaja num comportamento cooperativo
4-E´ "transparente" (clear).
E´ uma estratégia simples o suficiente para permitir ao oponente notar de imediato com que tipo de comportamento está lidando. Não há truque, nem "jogada".



Depois que apareceu como vencedora, TIT FOR TAT foi desafiada e venceu mesmo em torneios em que os demais competidores apresentaram programas desenhados especificamente para batê-la.
Com toda sua simplicidade TIT FOR TAT pode realmente levar à cooperação em uma grande variedade de situações, algumas muito improváveis.
Por exemplo, a estratégia "viva e deixe viver" (live and let live) que apareceu espontaneamente nas tricheiras na primeira guerra mundial: unidades inimigas, frente a frente por meses a fio, evitavam dar o primeiro tiro. Apesar de não haver comunicação formal, e de serem inimigas, o compromisso tácito que surgiu foi: "se você não atirar eu não atiro". O fato de os mesmos soldados estarem convivendo na mesma situação por vários meses, levou ao acordo (não combinado,tácito) para a cooperação.
Robert Axelrod notou que isso se deve ao que ele chamou de "sombra do futuro".É o seguinte:toda vez que há perspectiva da relação durar muito tempo (muitos encontros),há uma tendência de Tit fot Tat aparecer.Por quê? Simplesmente porque os jogadores percebem que "não vale a pena trair hoje,porque vamos nos encontrar de novo amanhã,e aí quem eu traí vai lembrar e retaliar".
A estratégia Tit for Tat(daqui pra frente TFT) é "faça ao aoutro o que ele fez a você"- é muito "humana",não acha ?Mas note que não há nada consciente nela.Ela não entende o valor da reciprocidade. Ela não é moral,nem espititual,nem pretende ser boa.Ela apenas age mecanicamente obdecendo a uma regra totalmente "cabeça dura".
Será que TFT pode ter sido a estratégia que ensinou os humanos a cooperarem?
Resposta:TFT deve ter tido alguma coisa a ver sim, mas não pode ser a história toda. Por quê?Vamos ver nos próximos posts.

04/05/2008

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Jogos de morcegos,jogos de guerra...

Mesmo quando não há comportamento consciente envolvido,TFT pode ser adotada.
Certas espécies de morcegos vampiros saem em bandos àpara sugar sangue de cavalos, ovelhas. ..Nem todos conseguem. É comum alguns morcegos que conseguiram mais do que necessitavam, regurgitarem o excesso de sangue para algum colega que não conseguiu nada. O colega, dias depois, retribui o favor. Eles se reconhecem na multidão de morcegos. Reputação conta e muito.TFT é isso. Como há um lapso de tempo entre a boa ação e a retribuição a ela, esses morcegos têm que ter boa memória. Há dezenas de exemplos análogos. Colabore comigo hoje, que eu retribuo amanhã.
JOGOS DE GUERRA
Os soldados na trincheira a que me referi no post anterior,e os morcegos cooperativos acima, ilustram algo importatíssimo. Para que TFT possa se instaurar, a relação entre os jogadores tem que ter uma perspectiva concreta de durar muito tempo. Tem que haver grande possibilidade de novos encontros no futuro.
A sombra do futuro tem que ser longa, como dizem . Se não for,...
Bem se não for você já sabe-o racional é trair. Lembre-se daqueles soldados na trincheira. Lembre-se de quando você amassou aquele BMW quando tentava estacionar seu Golzinho (Uno Mille?). Claro, você saiu de fininho. Nunca mais iria ver o proprietário mesmo...

05/05/2008

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A "sombra do futuro"-Jogos de bactérias

Bactérias não têm cérebro. De um ponto de vista darwiniano, elas são os seres vivos mais bem sucedidos que há. Existem há bilhões de anos, e têm uma capacidade de replicação incrível. Você hospeda em suas entranhas bilhões delas. Há mais bactérias vivendo dentro de você do que há seres humanos na Terra.
Nas palavras do biólogo ingles, Richard Dawkins, elas estão:
provavelmente envolvidas em dilemas do prisioneiro com os organismos que as hospedam.....Bactérias que normalmente são inofensivas, e mesmo benéficas, podem tornar-se malignas ,e até provocar septicemias letais numa pessoa ferida. Um médico diria que a “resistência natural” da pessoa ferida diminuiu por causa do ferimento, mas talvez a causa real tenha a ver com jogos tipo dilema do prisioneiro.
Será que não poderemos ver as bactérias que hospedamos como seres que normalmente têm algo a ganhar, mas preferem se conter? No jogo entre bactérias e seres humanos, a “sombra do futuro” é normalmente longa, pois, tipicamente se espera que uma pessoa viva muito tempo. Porém, alguem seriamente ferido está sinalizando que potencialmente a sombra do futuro para a relação com a bactéria, encolheu.
A tentação de trair começa a aparecer (para as bactérias) como uma opção mais atraente que a recompensa pela cooperação mútua. Não é que as bactérias ” imaginem” tudo isso em suas cabeças maldosas! A seleção natural atuando em cima de várias gerações de bactérias embutiu nelas uma regra prática, inconsciente, que opera através de meios puramente bioquímicos
Resumindo: de alguma forma as bactérias ficam sensíveis ao fato de que a “sombra do futuro” diminuiu. A relação pode acabar mais cedo do que o esperado. O ferimento no organismo hospedeiro fez com que ele emitisse alguns sinais (químicos). As bactérias decodificam esses sinais que estão dizendo simplesmente: “estou ferido; posso vir a morrer”.

E você sabe, leitor, se a relação tem data para terminar, o “racional é trair”. É isso que as bactérias fazem.
Os humanos também.Veja o que ocorre (com frequencia) quando casais decidem se separar.Brigam por migalhas-(quem fica com os talheres,quem leva os CDs...).É que a sombra do futuro encolheu para eles.É cada um por si agora.


06/05/2008

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Jogos no fundo do mar-ainda a sombra do futuro

(O pessoal está comentando,então é porque está interessado. Vou fazer mais este post antes de falar no truque da evolução para dara garantias de que não vamos trair no jogo:a emoção).
====
Vimos que uma maneira de forçar a colaboração é alongar a “sombra do futuro”. Isso se faz , por exemplo, aumentando aos poucos a freqüência da interação entre os jogadores, fazendo-os levar em conta que “logo vou encontrar esse cara de novo” .
Nos bancos de coral do Panamá vive um tipo de peixe em que não há distinção sexual. É uma espécie hermafrodita. Todos os membros são macho/fêmea e alternam periodicamente seus papéis sexuais. Durante a fase inicial do acasalamento, cada peixe do par faz o papel de fêmea, e o outro o de macho. Mas cada “fêmea” põe apenas um pequeno número de ovos de cada vez, até que, através da relação continuada, o “macho” demonstre que não vai cair fora depois de os ter fertilizado. Assim ele está dando garantias de que vai fazer o papel de fêmea quando chegar sua vez.
Só à medida em que cresce a confiança entre os membros do par é que ambos os peixes começam a pôr quantidades maiores de ovos, confiando cada vez mais que não serão traídos.
O padrão de comportamento de seqüestradores e vítimas que, após longo tempo em contato, acabam desenvolvendo formas de simpatia (colaboração) mútua – a chamada síndrome de Estocolmo-talvez tenha a ver com essa influência da “sombra do futuro”. Quem sabe algum psicólogo se interessa por investigar esse fenômeno à luz da teoria dos jogos?

06/05/2008

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Jogos de humanos- Jogos da emoção



TFT tem um grave problema: se ela tivesse sido a estratégia preferencial da evolução, nós humanos não teríamos aparecido como produto dela.
Não do jeito que somos. TFT não é capaz de perceber quando alguem erra involuntáriamente-é fria demais. Se calhar de dois jogadores TFT entrarem em sintonia, tudo bem, começa o jogo da reciprocidade; mas, se por acidente ou engano, um deles trai, tem início uma série infinita de traições mútuas da qual não se escapa.
Lembre-se que o resultado da traição mútua é o pior possível para os jogadores.
O animal humano em suas interações sociais é complexo e sutil. Não é um traidor inveterado. Pelo contrário, busca a cooperação porque de alguma forma percebe que isso é melhor a longo prazo. Damos gorjetas a garçons que nunca mais veremos. Votamos em eleições (mesmo qunado isso não é obrigatório). Doamos sangue. Cumprimentamos estranhos com sorrisos.
Todas essas ações são perfeitamente irracionais no sentido da teoria dos jogos. Tentamos ao máximo parecer confiáveis, simpáticos, compreensivos, assim como quem diz: “pode jogar comigo, sou confiável”.
Por que fazemos isso? Talvez, porque busquemos reciprocidade fazendo essas coisas. Através delas pode-se tirar o máximo proveito da vida em sociedade colaborando nos dilemas do prisioneiro que surgem a toda hora.
[PS:fico pensando no Ronaldo,fenômeno.Vai ter que batalhar um bocado para recuperar sua reputação de credibilidade. Todos os contratos publicitários que assinou são baseados nisso].
TFT pode ter sido o início , o “ pé na porta” , mas depois deve ter evoluído para algo que permita distinguir o erro involuntário da má-fé premeditada, levando-nos a perdoar o erro e só retaliar a malandragem.
Como a evolução fez isso?
Uma hipótese bacana diz que foi embutindo emoção no equipamento mental dos humanos. Vou explicar

07/05/2008

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Emoção é um seguro contra a mentira

Você se lembra de TFT nas trincheiras da primeira guerra.
Ingleses e alemães, frente a frente, mantinham tacitamente um cessar-fogo. Robert Axelrod relata um episódio em que, por engano, a trégua foi rompida por tiros vindos do lado dos alemães. Era uma traição clara, e como bons jogadores TFT os ingleses estavam prontos para retaliar. Mas aí veio um emocionado e imediato pedido de desculpas de um soldado alemão,que, aos gritos dizia: “sentirmos muito, a culpa pelos disparos não é nossa, é de soldados de outra unidade- aqueles miseráveis artilheiros prussianos”.
Isso fez com que a trégua fosse mantida. Naquele momento, o que restaurou o equilíbrio na trincheira foi a reafirmação dos alemães do compromisso de continuar jogando o jogo como antes. O que levou os ingleses a acreditarem? Foi a forma pela qual o pedido de desculpas foi feito. A emoção fez com que o compromisso anunciado ficasse crível. Naquele momento os ingleses estavam superando TFT.
Para o economista Robert Frank, da Cornell University, emoção é algo que surgiu no processo evolucionário para nos habilitar a jogar o jogo social, garantindo credibilidade a nossos compromissos.
Através das emoções, provamos – para além das palavras – que somos jogadores confiáveis: jogue comigo, eu não trapaceio.
Você já notou como juramentos estão presentes em nossas vidas? Eles são indispensáveis em interações sociais em todos os níveis.
Um especialista comenta que juramentos existem “ em todos os povos e em todas as culturas. São indispensáveis no nível econômico, no jurídico, no privado, no público, no intra-tribal , no internacional... Nenhum tratado, nenhum contrato, nenhuma forma de administração da justiça se dá sem um juramento. Juramentos são fenômenos da linguagem; eles existem exatamente porque a linguagem é insuficiente [ para garantir credibilidade]. A fraqueza da linguagem é a possibilidade – a probabilidade – da mentira, da fraude, dos truques sujos nos jogos sociais. Chimpanzés a quem se ensina a linguagem dos símbolos, imediatamente tentam enganar seus treinadores, mentindo. É seguro concluir que nos primórdios da civilização, mentira e linguagem surgiram juntas e andavam juntas...Mas colaboração e troca em sociedade exigem confiança; meios para se evitar a trapaça, para possibilitar que as ações dos companheiros sejam previsíveis, para dar estabilidade a um mundo de valores comuns... O objetivo do juramento sempre foi excluir a mentira ..”dizendo a verdade, somente a verdade nada mais que a verdade” .
Legal. Mas jurar resolve? Se resolvesse, testemunhas não mentiriam no tribunal, médicos nunca trairiam o juramento de Hipócrates, padres não desrespeitariam os juramentos de pobreza, castidade e obediência...
Não. Para que os jogos básicos do convívio social pudessem se instaurar, a garantia do compromisso teria de ser dada de outra forma
Temos mecanismos instintivos em nossos cérebros-(emoções)- para demonstrar nossa sinceridade, independentemente do que possamos dizer.
Emoções são muito difíceis de camuflar. Acabamos revelando através delas, o que de fato estamos sentindo. As dezenas de músculos em nosso rosto deixam transparecer o que realmente vai lá dentro. O que dizemos é, em si, tão vazio que podemos usar até máquinas– detetores de mentiras– para flagrar.Você se lembra de TFT nas trincheiras da primeira guerra. Ingleses e alemães, frente a frente, mantinham tacitamente um cessar-fogo. Axelrod relata um episódio em que, por engano, a trégua foi rompida por tiros vindos do lado dos alemães. Era uma traição clara, e como bons jogadores TFT os ingleses estavam prontos para retaliar. Mas aí veio um emocionado e imediato pedido de desculpas de um soldado alemão,que, aos gritos dizia: “sentirmos muito, a culpa pelos disparos não é nossa, é de soldados de outra unidade- aqueles miseráveis artilheiros prussianos”. Isso fez com que a trégua fosse mantida. Naquele momento, o que restaurou o equilíbrio na trincheira foi a reafirmação dos alemães do compromisso de continuar jogando o jogo como antes. O que levou os ingleses a acreditarem? Foi a forma pela qual o pedido de desculpas foi feito. A emoção fez com que o compromisso anunciado ficasse crível. Naquele momento os ingleses estavam superando TFT.
Para o economista Robert Frank, da Cornell University, emoção é algo que surgiu no processo evolucionário para nos habilitar a jogar o jogo social, garantindo credibilidade a nossos compromissos. Através das emoções, provamos – para além das palavras – que somos jogadores confiáveis: jogue comigo, eu não trapaceio.
Você já notou como juramentos estão presentes em nossas vidas? Eles são indispensáveis em interações sociais em todos os níveis. Um especialista comenta que juramentos existem “ em todos os povos e em todas as culturas. São indispensáveis no nível econômico, no jurídico, no privado, no público, no intra-tribal , no internacional... Nenhum tratado, nenhum contrato, nenhuma forma de administração da justiça se dá sem um juramento. Juramentos são fenômenos da linguagem; eles existem exatamente porque a linguagem é insuficiente [ para garantir credibilidade]. A fraqueza da linguagem é a possibilidade – a probabilidade – da mentira, da fraude, dos truques sujos nos jogos sociais. Chimpanzés a quem se ensina a linguagem dos símbolos, imediatamente tentam enganar seus treinadores, mentindo. É seguro concluir que nos primórdios da civilização, mentira e linguagem surgiram juntas e andavam juntas...Mas colaboração e troca em sociedade exigem confiança; meios para se evitar a trapaça, para possibilitar que as ações dos companheiros sejam previsíveis, para dar estabilidade a um mundo de valores comuns... O objetivo do juramento sempre foi excluir a mentira ..”dizendo a verdade, somente a verdade nada mais que a verdade” .
Legal. Mas jurar resolve? Se resolvesse, testemunhas não mentiriam no tribunal, médicos nunca trairiam o juramento de Hipócrates, padres não desrespeitariam os juramentos de pobreza, castidade e obediência...
Não. Para que os jogos básicos do convívio social pudessem se instaurar, a garantia do compromisso teria de ser dada de outra forma
Temos mecanismos instintivos em nossos cérebros-emoções- para demonstrar nossa sinceridade, independentemente do que possamos dizer. Emoções são muito difíceis de camuflar. Acabamos revelando através delas, o que de fato estamos sentindo. As dezenas de músculos em nosso rosto deixam transparecer o que realmente vai lá dentro. O que dizemos é, em si, tão vazio que podemos usar até máquinas– detetores de mentiras– para flagrar Vejam o sexo (o ato sexual)......(continua)

08/05/2008

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Jogos do sexo

Pense na erecção num macho. Por que a evolução escolheu um mecanismo tão trabalhoso para que um macho fique em condições de penetrar uma fêmea? Por que não um osso, em vez do complicado processo hidráulico, com sangue tendo de ser bombeado `a alta pressão? Vários mamíferos têm ossos no pênis para ajudar na erecção, incluindo nossos “parentes” primatas. Nosso antecessores diretos- os chimpanzés- idem, apesar de serem ossos pequenos.Por que somos diferentes?


A utilidade no jogo que os seres vivos jogam é a propagação de seus genes.
Machos em todos os contextos biológicos têm uma inclinação maior para trapacear no jogo do sexo, por uma questão de economia: óvulos são raros, espermatozóides são abundantes. Machos simplesmente não perdem nada –ou perdem muito pouco – sendo promíscuos: copulando com o maior número possível de fêmeas, eles maximizam as chances de propagar seus genes. Esperma gasto é rapidamente subtituído.
Fêmeas, ao contrário, têm muito a perder se entregam seus preciosos óvulos para qualquer um fecundar. Perdem tempo e energia (se gerarem crias doentes por exemplo), e perdem também a possibilidade de gerar outras crias no período da gestação. O conflito de interesses é evidente no jogo do sexo.É uma coisa econômica-custo X benefício.
Uma história que faz sentido é a seguinte: enquanto os machos iam aprendendo formas mais elaboradas de “propaganda enganosa”– (prometer e não cumprir; aparentar sem ser)- as fêmeas respondiam tornando-se progressivamente melhores na detecção dessas fraudes, e reagiam utilizando sua arma mais letal: negando a cópula.
Isso forçava a mudança de comportamento do macho. Para fugir da trapaça, a seleção natural embutiu nas fêmeas um instinto que atua como se ela estivesse dizendo: ”não me venha com conversa fiada, você diz isso para todas. Prove que é confiável, se não, não dou”.
Através da erecção o macho está demonstrando: “pode copular comigo, eu sou saudável. Não corro risco de gerar crias doentes. Machos doentes não têm erecção”. Trapacear, fazendo um pênis flácido passar por erecto, é impossível .
A erecção hidráulica(hmmm...) naqueles tempos pré-Viagra, pode ter sido a prova decisiva para garantir as fêmeas contra a propaganda enganosa.
Fidelidade, família monogâmica, os atributos psicológicos do macho e fêmea humanos, podem ter se originado como consequência desse tipo de jogo, jogado através da imensidão do tempo.
A busca da reciprocidade nos jogos macho-fêmea, deve ter implicado muito conflito, muita tentativa e erro, mas, quando ela (reciprocidade) se instaurou, pode ter gerado como sub produto os sentimentos e vínculos que nos são mais caros.

09/05/2008

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Para ler mais sobre a teoria dos jogos



a-William Poudstone. Prisoner’s Dilemma - John Von Neumann, Game Theory and the Puzzle of the Bomb. Anchor Books,1992.
b-Richard Dawkins. God´s Utility Function.Scientific American, November 1995.
c- Richard Dawkins. O rio que saía do Éden-uma visão darwiniana da vida. Rocco, 1994.
d-Richard Dawkins. The Selfish Gene. Oxford University Press,1989.
e- Matt Ridley. As origens da virtude-um estudo biológico da solidariedade. Record, 2000.
f-Avinash K Dixit. e Barry J Nalebuff. Pensando Estrategicamente. Atlas,1994.
g-Robert Axelrod. The Evolution of Cooperation. Basic Books,1984.
h-Martin Nowak; Robert May; Karl Sigmund. The Arithmetics of Mutual Help. Scientific American, June 1995
i-Robert Wright .Non Zero-The logic of human destiny. Pantheon Books,1999.
j-Robert Frank,. Passions Within Reason- The Strategic Role of Emotions.Norton,1988
k-Jared Diamond. Por que o sexo é divertido. Rocco,1999.
l-Clemente Nobrega.O Glorioso Acidente. Objetiva,1998.
Clemente Nobrega-Antropomarketing.Senac Rio,2003.
m-Para jogar o dilema do prisioneiro interativamente via Internet :
http://www.princeton.edu/~mdaniels/PD/PD.html
http://serendip.brynmawr.edu/playground/pd.html

11/05/2008

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O grande jogo-Freud não explica



Poucas são as pessoas que conseguem camuflar suas emoções mais sinceras. Ficamos ruborizados, não dá para fingir.
É comum não controlarmos o riso ou o choro.
Dizemos “eu te amo” emocionadamente, para não deixar dúvidas sobre o compromisso .
Conflito de interesse. Instinto.Tentação da trapaça. Jogo. Emoção…
Começamos com as especulações matemáticas de um cientista hiper-racional no início da guerra fria. Quem imaginaria que chegaríamos `a emoção como elemento central dos jogos que os humanos jogam?
Se a evolução não tivesse embutido em nossos cérebros essa capacidade de discriminar, escolhendo parceiros confiáveis nos jogos em que nos envolvemos, não estaríamos aqui.
As emoções são essenciais para validar nosso comprometimento com a cooperação e buscar reciprocidade. Por meio delas superamos a racionalidade auto-destrutiva dos dilemas do prisioneiro, evitamos jogos de soma zero, inventamos nosso jeito “hidráulico” de fazer sexo e ,talvez, tenhamos inventado até o amor.
E olha, não é Freud que explica- é a teoria dos jogos .

11/05/2008

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Interações de soma positiva são as mais interessantes e enriquecedoras , mas também as mais difíceis,dada a tentação da trapaça.Trapacear(trair) é tentador porque aparentemente traz um ganho maior.Mas isso é ilusório. Interações repetidas entre os jogadores acabam revelando que você é fraudador,e você perde.O caso Enron foi exatamente isso.
Robert Wright- autor especialista nesses temas - formulou, uma espécie de lei, que dá conta dessa dinâmica. Se você examinar a história a partir da vida pré-civilizada, vai notar um padrão. Há uma direção na seta da história.
A vida em sociedade, segundo Wright, evolui assim: aparecem novas tecnologias que viabilizam (encorajam) novas formas de interação não zero que são mais ricas, mais vantajosas, para quem as pratica. Em seguida, surgem estruturas sociais para tirar partido desse potencial que acaba convertendo situações soma zero em situações de soma positiva. Acaba-se percebendo que é melhor domar o instinto natural de querer “vencer” o “outro” , ou tirar vantagem, ou explorar-e passamos a cooperar com ele. Por interesse, claro.
Com o passar do tempo, esses relacionamentos tornam-se mais abrangentes, passando a envolver mais gente.Ficam mais densos e entrelaçados, e as pessoas se vêem cada vez mais imersas em redes de interdependência mais ricas. Eis a lei de Wright- (formulada do meu jeito, claro):
Tanto a vida orgânica (pense no DNA) como a história humana em geral, envolvem interações que evoluem de soma zero total, para somas cada vez mais não zero; mais positivas. A complexidade das relações em sociedade-relações que são cada vez mais numerosas e mais abrangentes- implica em interações não zero cada vez mais elaboradas.
É essa acumulação de jogos que acaba fazendo com que os interesses “egoístas” de bactérias (que isoladamente são predatórias e desinteressantes) acabem colaborando para formar ,células,que vão “coagular” para formar estruturas vivas.

Nós somos colônias de bactérias que resolveram colaborar (fundindo-se em células) porque “perceberam” que era vantajoso para elas fazerem isso.O mesmo ocorre com a complexidade social.
Do bando isolado e individualista de caçadores-coletadores, onde só tinha gente da mesma família (gente com os mesmos genes), para a aldeia, o reino, o país, o estado, o mundo globalizado.
A busca de interações não zero é o que define a seta da história, desde a sopa primordial da qual emergiu a vida até a Internet.
Isso quer dizer, nas palavras de Wright, que um fenômeno como a globalização, está “programado” há muito tempo. Não apenas desde e invenção do telégrafo ou do barco a vapor, nem mesmo apenas desde a invenção da escrita ou da roda, mas desde a invenção da vida.

12/05/2008

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O conto dos países inovadores


Nos países inovadores há um alto nível de confiança nas relações entre os indivíduos. Cooperação com base em reciprocidade é a norma mais arraigada nas relações sociais. Reciprocidade quer dizer: eu recebo proporcionalmente ao que dou. Alguém receber algo a que não faz jus não é tolerado, e não receber o que é justo em troca de uma contribuição legítima, também não é. Quando a Enron foi para o brejo, a TV mostrou funcionários esvaziando gavetas aos prantos (por terem perdido empregos e fundos de aposentadoria) enquanto os chefões - que fraudaram e mentiram - saíam milionários. A raiva explodiu. O homem da rua, o pequeno José ou João (ou Joe) não entende de finanças, estratégias ou modelos de negócio. Precisa de autoridades que lhe orientem. Quando um cara chamado Kenneth Lay (ex-CEO da Enron), garantiu que ia torná-lo rico, Joe acreditou. Quando percebeu que foi traído, a raiva tomou conta. Kenneth Lay morreu semanas antes de ouvir sua sentença (que seria de 20 a 30 anos de prisão, no mínimo). O clamor público neste episódio pode ser comparado ao que ocorreu quando a TV mostrou o que, de fato, os EUA estavam fazendo no Vietnã.
Em países inovadores a mentalidade “soma não zero” permeia toda a sociedade. Essa é uma norma cultural que diz que o bolo que existe hoje poderá crescer se houver colaboração. Minha vitória pessoal não se dá ás custas da derrota de outro. A mentalidade oposta, ”soma zero”, diz que o melhor é garantir logo sua fatia do bolo, antes que outro o faça. Não há visão de destino compartilhado, ganha quem tirar mais para si.
O que garante o funcionamento do “sistema operacional” de países inovadores é a regra da lei (the rule of law). Um aparato jurídico que cuida para que as normas de convivência entre pessoas e instituições sejam seguidas por todos. Um funcionário mal remunerado de uma agência governamental americana pode processar Bill Gates e quebrar o monopólio da Microsoft. A corrupção é mantida em níveis mínimos.



13/05/2008

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Minha coluna na ÉPOCA NEGÓCIOS de Maio


<
Andei tão entretido com a teoria dos jogos ,TIT FOR TAT etcc que esqueci de avisar:a coluna este mês trata de um livraço "O Cisne Negro" de Nassim Taleb
Claro que não saiu por aqui ainda.
Leia em meu
site

13/05/2008

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