Clemente Nobrega, pesquisador de gestão e estratégia, autor de Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?, entre outros livros, e do site clementenobrega. com.br.

 
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Nassim Taleb, O Cisne Negro e o 11 de Setembro

Meu leitor, Pedro, diz o seguinte (comentário post abaixo): "Mas cá entre nos, o 11 de setembro nao foi um evento "cisne negro". Deixaram acontecer..."<br/>Lembre-se: um cisne negro para Nassim Taleb é um evento que ,POR NATUREZA, é imprevisível. Rejeitamos essa idéia por ignorância de nossa ignorância ,ele diz,mas a historia,a vida, são populados por black swans-nós é que nos recusamos a vê-los.
A "não-crença" exige um enorme dispêndio de energia e,por isso, construimos,a posteriori,historinhas para provar que a coisa poderia ter sido evitada.
Veja porque o 11 de setembro é um cisne negro (adaptação minha de um trecho do livro).
“Suponha que um legislador com coragem,intelecto,influência,visão e perserverança,faça passar uma lei que entra em vigor em 10 de setembro de 2001. A lei obriga que as portas de todas as cabines de avião sejam à prova de balas, e estejam permanentemente trancadas durante os vôos(custo altíssimos para as já combalidas empresas aéreas que vão chiar)-isso seria para impedir que algum terrorista maluco resolvesse atacar o World Trade Center.
(sei que a hipótese é lunática,mas isso é só um “experimento mental;sei que não existem legisladores com coragem,visão,intelecto etc...e é exatamente por isso que o experimento é mental) (thought experiment)).
Bem,a nova legislação não seria nada popular entre o pessoal das empresas aéreas,mas teria evitado o 11 de setembro sem dúvida.
O cara que impôs o uso de portas blindadas em cabines de avião não teria nenhuma estátua em praça pública,nem haveria qualquer menção a isso em seu obtuário.Imaginem:
”Joe Smith que ajudou a evitar o ataque de 11 de setembro, morreu ontem de complicalçoes renais”.
O provável é que, achando que sua legislção era supérflua e dispendiosa,o público, com uma forcinha das linhas aéreas, desse um jeito de mandar Joe Smith para casa nas próxima eleição. Ele se aposentaria deprimido,achando-se um fracassado. Morre sem ter feito nada útil.
Eu gostaria de ir ao seu enterro,mas não há jeito de ficar sabendo dele.
Joe Smith é uma não-notícia.
Leitor, você pode dizer o contrário, mas reconhecimento é importante demais.Mesmo qem diz que não liga para isso (mentindo ,claro) ganha uma bela descarga de serotonina ao ser elogiado e perceber seu senso de importância aumentado.
Veja como heróis anônimos como Joe Smith são recompensados.O cara morreu depressivo.Até seu sistema hormonal conspirou para puxá-lo para baixo".

15/05/2008

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Leitores, aguentem firme

Sinto-me culpado.
Milhares de leitores devem estar frustrados (he megalomania!) mas esta é uma daquelas semanas em que não está dando para atualizar o blog decentemente.
Viagens,viagens, viagens.Quatro estados em 5 dias úteis.Só vai dar para postar decentemente a partir do fim de semana.
Volto com tudo até domingo (18)


16/05/2008

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Ignorância mortal em gestão de pessoas



Os gestores de RH tinham de conhecer a teoria dos jogos.
Dê uma olhada no que se diz/escreve sobre pessoas nas empresas. A busca por talentos (gente) tornou-se o tema quente em gestão. O papo começa sempre com aquele lero-lero conhecido:"pessoas especiais/escola de líderes/gente em primeiro lugar/importância do humano na organização blá,blá,blá... ". Tudo cascata. A razão?Visão errada do que é uma "pessoa".
Uma pessoa numa organização é um AGENTE que só colabora se houver contrapartida, se não não.Pode fingir,mas não colabora. Tit for Tat é o embrião da coisa .Por isso, considero os experimentos de Robert Axelrod um dos desenvolvimentos mais bacanas da ciência, com indicações de caminhos claros para quem quer,de alguma forma,gerenciar gente (quem não sabe o que é veja posts recentes)
A sequência de posts sobre a teoria dos jogos, nos leva a uma suspeita que tem se confirmado:as pessoas não são intrinsecamente colaboradoras nem intrinsecamente traidoras. Somos COOPERADORES CONDICIONAIS.Ou seja, o que fazemos depende da forma como somos tratados,depende do ambiente em que estamos.
A busca da reciprocidade ficou programada em nós pela evolução.
Isso que podemos chamar de “senso de justiça”, é baseado na noção de reciprocidade. “Eu te ajudo,mas espero a contrapartida ”. Numa série muito engenhosa de experimentos, Leda Cosmides e John Toby, da Universidade da Califórnia, mostraram que o animal humano é programado para detectar injustiça. Confiança (trust) e detecção e punição da injustiça estão no coração da sociedade, no centro da idéia de civilização.
Matt Ridley diz:
Pessoas em toda parte têm uma tendência inata para monitorar o comportamento umas das outras. Monitorar a real contribuição que cada um está dando. Consciente ou inconscientemente todo mundo faz isso. Em todas as culturas há fofocas no ambiente de trabalho sobre quem é parasita e quem é, de fato, jogador de time. Em todas as culturas as pessoas estão antenadas sobre quem é preguiçoso e ingrato, e calibra sua própria generosidade de acordo. Em todas as culturas as pessoas tentam sempre, sem exceção, fazer o melhor negócio possível para elas próprias”.
As empresas (em geral) são ignorantes disso.Essa é a razão pela qual se evoluiu tão pouco em gestão de pessoas.Vamos ver mais disso a seguir

18/05/2008

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A percepção de que “as coisas são injustas nesta empresa” corrói,trava e destrói.
É um pecado mortal




A construção de “processo justos” deveria ser o pilar da gestão de pessoas, e a razão disso é nossa alma Tit For Tat. Injustiça nos desestabiliza.
Mas não, a turma prefere perder tempo com platitudes tipo “líder servidor”, monges, golfinhos, ninjas , águias e que tais. O mundo empresarial ás vezes é muito medíocre (eu disse “às vezes”?Bem,deixa pra lá...).
Confiança/reciprocidade e punição da injustiça são tão importantes para os humanos que, muitas vezes, preferimos nos prejudicar pessoalmente para não aceitar uma “injustiça”.
Outro desses experimentos fartamente documentados dá conta da seguinte situação: duas pessoas devem dividir uma soma em dinheiro (R$ 100 digamos). Para que possa haver a partilha, ambas têm de concordar quanto à fração que caberá a cada uma. Uma delas tem a incumbência de propor quanto cada uma vai receber, e a outra aceita ou rejeita. Se rejeitar, ninguém ganha nada.
Seria de se esperar que mesmo um rateio 99:1 fosse aceito, porque, racionalmente, um real é melhor do que nada. Na prática, porém, pouca gente aceita uma divisão menor do que 70:30. Se você ousa propor menos que isso, o outro jogador veta a partilha e prefere ficar sem nada só para punir sua ambição. O considerado “justo” é 50:50, meio a meio. Qualquer outra coisa é percebida como violação da idéia de reciprocidade programada em nossas mentes.

19/05/2008

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Quando estamos em ambientes em que se exercita cooperação e reciprocidade....

....nosso instinto de cooperação nos direcionará a cooperar também. Tiramos,instintivamente, uma amostra da população ao redor e, se as pessoas são cooperativas, tornamo-nos como elas. Em um ambiente trambiqueiro, porém, cujas normas sociais não dão suporte à cooperação, nosso software nos torna permanentemente desconfiados.Todo mundo protege seu próprio traseiro.
Empresas inovadoras (países também) garantem alto nível de cooperação baseada em reciprocidade.
Em qualquer grupo há os que enxergam o mundo como um “jogo de soma zero” e os que o vêem como “jogo de soma não zero”. Lembre-se: se sua mentalidade é “soma zero” você vai agir para pegar a maior fatia possível do bolo, antes que outro o faça. Você acha que só pode ganhar se outro perder. Em vez de investir suas energias na busca de possibilidades (necessariamente cooperativas) de se dar bem, você opta por ser um predador. Enquanto um equivalente seu (nem um pouquinho mais inteligente que você) que vive na Noruega ou em Silycon Valley ,empreende ,arrisca e inova, você está preso à lógica “soma zero”.

20/05/2008

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Comentário de leitor (dois posts abaixo)

"Vai ver que é por isto que as pessoas preferem as idéias sociais-democratas às liberais. A idéia (ou seria o fato?) de algumas pessoas terem muuuuito e os demais só ficarem olhando, nao nos é muito grata. Deve ser coisa dos nossos antepassados".

Talvez sim.Corroborando: em alguns países a opinião pública começou a rejeitar políticas públicas tipo BOLSA FAMÍLIA ,depois de as terem apoiado no início.
A interpretação de especialistas é a seguinte:no início,as pessoas consideravam justo um auxílio, porque os necessitados eram vistos como gente que não conseguia "fazer a parte delas" por nunca terem tido condições mínimas para tal.
Com o tempo, essa percepção mudou porque ,mesmo com o auxílio ,os beneficiários não faziam a sua parte. Acomodavam-se com a ajuda oficial (parasitismo) e isso viola as regras do jogo da reciprocidade.
Será que vai acontecer no Brasil?

20/05/2008

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Um trecho de meu artigo-POR QUE O BRASIL É RUIM DE INOVAÇÃO

A corrupção, em qualquer sociedade, é resultado de duas coisas: escolhas individuais e normas sociais. Juntas, as duas definem o nível de corrupção de um país (não sou eu que digo, são pesquisadores de algumas das melhores instituições do mundo).
Há ambientes em que você não consegue não ser corrupto, mesmo que queira. Quem quer bancar o trouxa e se deixar explorar num ambiente trambiqueiro?
Todo mundo vira “esperto”. Nesse tipo de ambiente, corrupção, desonestidade e roubalheira são normas culturais. Todas as sociedades “soma zero” são assim. As atitudes morais também são distorcidas: “Estou apenas me garantindo.. Se eu não pegar outro pega”.
Uma série de brilhantes experimentos mostrou isso.Imagine uma população na qual alguns agentes têm mentalidade “soma zero”, e outros, mentalidade “não zero”. À medida que o tempo passa, os agentes “não zero” descobrem que podem ficar mais ricos cooperando uns com os outros. Nesse ponto, eles começam a ser atacados pelos “soma zero”, que vão querer sua fatia do bolo sem ter colaborado para que ele crescesse (é da natureza deles, entende?). Esse conflito vai baixar os retornos propiciados pela cooperação, e pode levar a uma situação em que os agentes “não zero” se convencem que cooperação não vale a pena; aí eles se transmutam em “soma zero” também. Não é uma tragédia?
Quando os pesquisadores modelaram essa dinâmica, descobriram que existe um ponto limite: quando, numa sociedade, os não cooperadores ultrapassam os cooperadores, a colaboração não se sustenta mais no nível necessário para produzir riqueza, e o país cai no que chamam de “armadilha da pobreza”.
Aí está a razão pela qual países inovadores prezam tanto a “regra da lei”-é ela que garante que o pessoal “soma zero” será contido, e não conseguirá contaminar o país. Regra da lei é condição para inovação.

Leia o artigo completo em http://www.clementenobrega.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=361&sid=4

21/05/2008

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Minha maneira de pensar gestão
(ao leitor André que me mandou e-mail):

Sim, minha maneira de ver a empresa (qualquer empresa a partir de certo porte) é como sendo um sistema abstrato, populado por agentes cujo comportamento em grupo é sempre previsível.
Não dou a mínima para indivíduos, por mais competentes que sejam. Empresas são sobre trabalho em grupo.
Ou seja,vejo as pessoas como agentes cujo comportamento (em grupo) vai depender da maneira como a empresa é gerenciada.
É o líder que molda o contexto que vai inspirar ou cooperação ou traição/parasitismo. Liderança, por isso, é a mais importante das funções gerenciais para mim.
Não existem pessoas especiais (isso é historinha).
As pessoas (os agentes) se comportarão em média da mesma maneira-cooperarão ou não, dependendo de como forem tratadas. Entramos no barco se percebermos tratamento justo,traímos (pela indiferença,parasitismo, cinismo) em caso contrário.
Na média é assim.Ponto.
Você pode encontra ,isoladamente,indivíduos genuinamente altruístas (que realmente pensem primeiro no bem comum independentemente da forma como são tratados). São os “religiosos”, digamos. A turma que "oferece a outra face". Esqueça-os. Não se constrói uma empresa com base neles. São exceção.
Em grupo de muitos agentes (pessoas), o comportamento que emerge é previsível, porque a natureza humana, em média, é a mesma em toda parte. O que emerge é cooperação condicional.É punição do que se percebe como “injusto”.
Resumo: muita gente tem sempre comportamento previsível, indivíduos isolados não.O “muito” tem propriedades diferentes do pouco. “Mais” é diferente.
É besteira tentar construir empresas por meio de “indivíduos especiais”. Você tem que é que construir ambientes em que a pessoa média (em termos de atitudes),tendo a competência adequada, se torne grande performer.
A pessoa média,lembre-se, é cooperadora condicional.
O ambiente, o sistema,é ,sim,mais importante que “as pessoas”.
Por quê?
Lembre-se do insight básico de Tit for Tat: o que fazemos depende do que fazem a nós.É o ambiente que define esse “o que fazem a nós”.É ele que tem de ser desenhado primeiro,não as pessoas.
Essas já vem com sistema operacional programado em seus sistemas nervosos.

21/05/2008

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A lei dos grandes números

Há uma razão bem científica para escolhermos o ser humano médio( shakespeareano) como nosso foco na formulação da ciência da gestão de pessoas. É uma lei estatística chamada lei dos grandes números.Para os fins que nos interessam ela pode ser formulada mais ou menos assim:
"O comportamento de um grande número de pessoas é mais previsível do que o comportamento de um grupo pequeno ou que o comportamento de uma pessoa isolada".
A lei dos grandes números nos ajuda a entender várias coisas aparentemente misteriosas da vida em sociedade, e muita coisa da vida na empresa. Por exemplo, ninguém controla a quantidade de comida que deve chegar a uma cidade como São Paulo, ou quais tipos de comida devem ser encomendados, mas é certo eu encontrar o que quero, quando quero, do jeito que quero. A habilidade que o sistema tem de antecipar minhas necessidades e desejos sem que eu tenha falado deles a ninguém, é explicada pela lei dos grandes números. Eu, um cara “médio”, não vou sair procurando nada muito fora da média.
O que o se faz é entender o que move esses “médios”, e agir de forma a satisfazer suas necessidades/desejos.
Chamam esse talento para computar o que os “médios” querem, de talento de marketing.

22/05/2008

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De um livro bacana-THE COMPANY OF STRANGERS
(não deve ter saído em português,eles devem estar ocupados preparando A VOLTA DAQUELE MONGE E DAQUELE EXECUTIVO)

Gostamos de nos imaginar indivíduos únicos e originais, mas nossos comportamentos são altamente previsíveis. No início do século XIX, os estatísticos ficaram fascinados ao notar que até eventos relacionados com motivos íntimos, como suicídios em grandes populações, ocorrem de modo suficientemente regular para serem previsíveis []. Nossas atividades mais banais como trabalhar, nos vestir, fazer compras, cozinhar, viajar, são surpreendentemente regulares na massa dos indivíduos da sociedade, e possibilitam a organização de vários tipos de atividades produtivas”(Paul Seabright)

- Uma curiosidade: não sei se você sabia, mas é o fato de podermos estimar comportamentos de grupos de pessoas, que torna possível essa atividade comercial a que chamamos de marketing. Os assim considerados grandes “marketeiros”, sempre tiraram partido disso-de Sam Walton fundador do Wal Mart, a Duda Mendonça, fundador do Lula na campanha presidencial de 2002.
Henry Ford, por exemplo, apostou que a pessoa média iria adorar ter um carro em que pudesse percorrer os “grandes espaços abertos de Deus”. Com base no que intuía da alma do homem comum (médio), bolou um jeito de fazer carros ao alcance dele. Na eleição presidencial de 2002, Duda Mendonça notou que o eleitor médio não gosta de candidato que xinga e agride: “com vocês, Luliiinha paz e amooor!”. A multidão se comporta de modo previsível e cabe ao marketing descobrir e tirar partido do que a motiva.

23/05/2008

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