Clemente Nobrega, pesquisador de gestão e estratégia, autor de Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?, entre outros livros, e do site clementenobrega. com.br.

 
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Só aceito as respostas que me dão, se perceber evidência que as corrobore

É por isso que não sou entusiasta de idéias como:”cotas para negros em universidades”,”responsabilidade social de empresas” ,”as pessoas na empresa têm que vir em primeiro lugar”, “o papel dos líderes é servir a seus funcionários”,”se você pode sonhar ,você pode fazer” e varias outras.
Acho fraca a evidência que me apresentam para justificar essas coisas,só isso.Os efeitos que elas,supostamente,produziriam,está longe de estarem demonstrados.
Me interesso por domínios onde nossas ações possam ter efeitos previsíveis- o mundo das empresas por exemplo.
Empresas habitam o “Mediocristão” e no Mediocristão você pode PREVER com um razoável grau de certeza. Lembra disso?Relembro rapidinho:
Há dois tipos básicos de incertezas na vida. Elas habitam duas províncias :o "Mediocristão" e o "Extremistão".
O Mediocristão é o lugar em que o "normal" e o "esperado" prevalecem. Ali, a incerteza é regida pela curva de Gauss. Há um "médio" em torno do qual a dispersão se distribui.No Mediocristão não existe um evento que possa mudar as coisas decisivamente de uma hora para outra .Se você se exercita,faz dieta e controla o colesterol,suas chances de ter uma ataque cardíaco repentino são muito baixas. A saúde-(sorte nossa)- é do Mediocristão.Posso controlar.Posso predizer.
A enorme maioria das empresas onde você pode trabalhar habita o Mediocristão (veja abaixo e post a seguir). Vou repetir:as atividades empresarias que devem interessar a quem estuda gestão são do Mediocristão,apesar de tentarem nos fazer crer no contrário. Não acredite.
Grandes tacadas estratégicas,inovações espetaculares que mudam mercados e alteram as regras do jogo de repente,são raras e são para poucos.Não são para você,esqueça-as!O sucesso QUE DEPENDE DE VOCÊ, está no mediocristão!
O outro tipo de incerteza habita o "Extremistão".
Uma vida saudável livra você do ataque cardíaco, mas não da bala perdida. Balas perdidas vêm do Extremistão.
Ali, um único evento altera tudo (o 11 de Setembro, o Google).Eventos do Extremistão são IMPREVISÍVEIS e,portanto, não são gerenciáveis.
Se você se interessa por inovação, gestão, empresas, repito: fique no Mediocristão. Isso quer dizer: não se preocupe em criar aquela inovação matadora, preocupe-se em operar muito bem.Por quê? Porque quem opera bem tem mais chance de sucesso. Empresas bem geridas têm melhores resultados do que empresas mal geridas.
Gestão você pode aprender,genialidade não.A chance de você criar algo que vai mudar o mundo é zero,cara!Se você estivesse no caminho para mudar o mundo,não estaria perdendo tempo lendo meu Blog.
As grandes inovações vieram por acaso.Bill Gates não sabia que ia ser Bill Gates.Ele diversificou suas apostas exatamente porque não tinha certeza de nada.
Gente inteligente não aceita esse negócio de “nunca desista de seu sonho”.Gente inteligente sonha sonhos múltiplos,e só se fixa no que pode dar certo depois que a evidência mostrou que pode dar certo.Experimentar é essencial
+++++
(continua no próximo post.Não percam!)<

15/06/2008

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Steven Pinker, um dos meus autores preferidos sobre temas científicos, escreveu:

“Todo mundo diz que a China será a nova potência econômica e científica. Será que isso é compatível com a atual rejeição deles ao debate livre e á exploração de idéias?
Uma sociedade tecnologicamente avançada é compatível com o anti-intelectualismo e a repressão ao debate?
É difícil imaginar como a China poderá competir com o mundo ocidental (como fonte de inovação científica e tecnológica) se as idéias lá não podem ser discutidas e avaliadas.
Ou será que a Internet-que nunca pode ser 100% censurada-ou um bando de PhDs voltando do ocidente,serão suficientes para fazer pressão e o brigar o país a se abrir?”.


Este tipo de questionamento é típico de um cientista. Creio que se Pinker desse a resposta, ele diria:”Não, o atual surto Chinês não é sustentável.Toda a evidência existente sugere que avanço tecnológico consistente é incompatível com repressão intelectual”.
É exatamente o que tentei dizer quando,em um post aí embaixo, declarei não acreditar em inovação sustentável no Brasil com os atuais níveis de corrupção (ausência da regra da lei).
É que toda evidência existente sugere que geração sustentavelmente crescente de riqueza é incompatível com ausência da regra da lei.
A ciência ás vezes pode ser tremendamente inspiradora.Volto agora ao que prometi no post anterior.

16/06/2008

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Lembre-se do meu conselho:”em gestão, privilegie o mediocristão”.

Quando falo “mediocristão em gestão”, estou falando em vendas, (sim,vendas minha gente!vendas!),monitoramento de indicadores,treinamento,logística,ocupação de mercado,eficiência operacional,formatos para replicação de negócios,relações com fornecedores,distribuição..Essas coisinhas.
Vou repetir:em qualquer mercado há uma demanda enorme,brutal,acachapante, por metodologias para fazer essas coisas direito.Demanda por conhecimento e competências nessas áreas.Essas coisas dão dinheiro,cara!O mercado não precisa de estrategistas geniais, precisa de gerentes!
Estratégia é para poucos. Há uma razão (muito científica até) para que isso seja verdade (explico depois.Me cobrem.É um grande tema).
As atividades que citei acima são (uma parte) das coisas a que você pode se dedicar.Nelas, o SUCESSO DEPENDE MUITO MAIS DE SUA COMPETÊNCIA do que do acaso.
Mas não,você prefere o glamour de Steve Jobs, o charme dos rapazes do Google;você lê as biografias de todos os homens de negócios de sucesso e sonha ser um deles “porque confia em você”.Você acha que tem talento,raça.Você deseja intensamente e ”nunca desiste de seu sonho”.Resumo:você caiu no conto do vigário “do universo que conspira a seu favor”.
Dê uma olhada nas revistas especializadas em negócios no Brasil dos últimos meses: só gente genial. Eike Batista é o da moda;a turma do Banco Garantia; os discípulos da turma do Garantia ; o cara da Cosan; o sujeito da bolsa;os mavericks da construção civil; o cara que virou e desvirou a própria mesa... Há uns dois anos era o Constantino, da Gol (que anda meio sumido no momento).Tem também os novos milionários dos IPOs brasileiros....Só personalidades,só gente “fodona”.
No resto do mundo é a mesma coisa. É a cultura da celebridade que entrou no mundo dos negócios(já expliquei a origem disso num post antigo).É um fato da vida.Pessoas de sucesso só são interessantes enquanto fazem sucesso.Profissões de sucesso (tipo popstar) só são bacanas se você faz sucesso,cara.
O que faz o sucesso dos megassucessos? É o ator que faz o filme ou o filme que faz o ator?No cinema,aquilo que chamamos de “talento” geralmente vem depois do sucesso (é causado pelo sucesso) não o contrário.Há um autor (citado por Nassim Taleb, não li) chamado Art de Vany,que estudou a incerteza na indústria cinematográfica.”Ele mostrou que muito do que chamamos de talento,é um atributo que surge após o sucesso.É o filme que faz o ator,e é uma larga dose de sorte que faz o filme”.
Há também o talento genuíno,claro (coisa para poucos).
É só você notar a repetição de um padrão de sucesso por muito tempo e em circunstâncias diferentes. Steve Jobs têm talento único para transformar alta tecnologia em produtos de massa. Pelé teve talento único. O futebol brasileiro tem talento único –é só ver a história.Wanderley Luxemburgo (um chato!) tem talento único.
Será que Roberto Carlos tem? Paulo Coelho? Diga você...
Ontem (segunda 16) fiquei assistindo às mesas redondas sobre futebol na TV. Acho uma besteira, mas não perco.Hilário.Grandes teorias APÓS O FATO,para explicar qualquer coisa-o suceso e o fracasso.Vou falar sobre isso aqui.

17/06/2008

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De onde vem a riqueza dos povos ricos?(I)

Falei sobre o que Steven Pinker PERGUNTOU (não afirmou,quem afirma sou eu) sobre a China, e houve protestos(dois posts abaixo).Parece que identificaram alguma conotação racista ou preconceituosa na tese dele.Engano.
O resumo da idéia que (eu)quis passar é o seguinte: sociedades fechadas, que não se expõe, e tentam se proteger de idéias e/ou novas tecnologias ,tendem a se dar mal a longo prazo.Eu acho que isso pode ser verdade.É plausível.Conheça um pouco sobre o pensamento de Steven Pinker no site www.edge.org. Eu o acho ótimo.
Outro cientista,Jared Diamond (autor de “Colapso” e “Germes,armas e aço”,publicados em português) segue uma linha análoga. Ele tenta mostrar que há lições a serem aprendidas dos “experimentos da história” e chega à conclusões semelhantes. Veja abaixo um resumo (á minha moda) de suas idéias.
+++++++++++
O método da ciência é observar a complexidade do mundo, coletar fatos, e “comprimi-los” em formulações simples,que não apenas deem conta do que se observou, mas que também prevejam o que se observará no futuro.
Foi isso que fizeram Newton,Einstein, Darwin etc... Jared Diamond- biólogo, antropólogo e fisiologista da Universidade da Califórnia-tem sugerido para o mundo das organizações, princípios que descobriu nos “experimentos da história”.Bill Gates é fã dele.Diamond parte de certas perguntas:algumas sociedades são mais produtivas e inovadoras que outras.Por quê? Por que não foram os guerreiros Bantu, montados em rinocerontes, que se dirigiram para o norte para dizimar os romanos e criar o império África-Europa? Porque a China perdeu a liderança tecnológica que tinha na época do Renascimento? Qual a melhor forma de organizar sociedades para maximizar a produtividade, criatividade, inovação: isto é, geração de riqueza?
A China era líder mundial em inovação e tecnologia.Inventara o ferro fundido, a bússola, a pólvora, o papel, a porcelana, a tipografia...um monte de coisas. Tinha a maior frota, e seus navios viajavam para todo lado.Pareciam prestes a virar o Cabo da Boa Esperança,subir a costa da África e “colonizar” a Europa quando, um novo imperador chegou ao poder,decidiu que navios eram um desperdício e mandou desmantelar as frotas.A China era unificada,e todos tinham de cumprir as ordens.A tradição se perdeu.Compare com o que ocorreu na Europa (continua)

19/06/2008

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De onde vem a riqueza de quem é rico (II)- A China já poderia ser a tal há muito tempo....

Compare o que aconteceu na China (post abaixo) com o que ocorreu na Europa.
Colombo queria navios para atravessar o Atlântico.Na Itália, acharam a idéia estúpida, e ele fez seis tentativas em países diferentes, sem sucesso. Todos acharma sua idéia estúpida.
Finalmente, na sétima, os reis da Espanha concordaram com uma frota pequena.Colombo descobriu o Novo Mundo, e Cortez e Pizarro,que o seguiram, trouxeram grandes quantidades de riqueza. Em pouco tempo,11 países europeus competiam ferozmente no jogo colonial.
Isso foi possível porque a Europa era fragmentada, sem comando central como na China.Colombo tinha opções.Na Europa houve autoridades que recusaram, a tipografia ,as armas de fogo e até a luz elétrica.Mas,como no Renascimento ela estava dividida em dois mil principados, um imbecil sozinho não poderia abolir uma inovação numa tacada só.Inventores tinham muitas oportunidades;havia competição e, quando um estado experimentava algo que parecia ter valor,os outros adotavam.
Em 1543, aventureiros portugueses apresentaram armas de fogo aos japoneses.Dez anos depois o Japão já tinha mais armas per capita do que qualquer país, e em 1600 tinha as melhores armas do mundo.Então,no decorrer do século seguinte, abandonou-as gradualmente por influência dos samurais que temiam camponeses armados. Em 1840 já não tinha armas de fogo.Isso só aconteceu porque não havia nenhum vizinho ameaçando o Japão. Quando as armas de fogo chegaram à Europa,também houve príncipes que as proibiram,mas quando um príncipe no meio da Europa bania as armas de fogo, em pouco tempo o príncipe vizinho o invadia e conquistava.O erro era percebido, e as armas recompradas rapidinho do reino ao lado.A proibição só funcionou no isolado Japão.
(continua e caba no proximo post)

19/06/2008

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De onde vem a riqueza de quem é rico?Vem da exposição a idéias e produtos de fora, e do aprendizado que isso acarreta!

Essas histórias (posts abaixo) ilustram dois princípios gerais.
Primeiro:a maioria das inovações é induzida de fora.
Segundo:quando uma sociedade adota modismos que não fazem sentido economicamente, eles (com o tempo) acabam sendo revertidos,porque as sociedades vizinhas,que não adotam os modismos,ganham vantagem, e passam a ameaçar quem adotou.
É algo mecanicista assim.Não depende de coragem,de amor à pátria nem de ideologia.
Eis o mandamento de Clemente Nobrega para países que querem inovar(megalomaníaco é a vovozinha!): NÃO SE PROTEJA.EXPONHA-SE!
Fico pensando em Cuba,China (Internet proibida).Fico pensando naquela nossa lei da época dos militares - reserva de mercado para a informática "para nos proteger"(nossa mãe!); nas tarifas que impusemos também “para nos proteger” em produtos eletrônicos nos anos 80...Tudo besteira ignorante que gera o efeito contrário ao pretendido
Proteção não;exposição sim.Experimentação sim (tinkering,em inglês),eis a fonte do aprendizado e do crescimento.
A Alemanha é competitiva (é craque!) em química,metalurgia, mecânica fina.. mas não em cerveja. Por quê, se a cerveja alemã é a melhor do mundo?
Há 1000 produtores de cerveja lá, protegidos da competição entre si e com os importados. Legislação protecionista somada à cultura local.Cada pequeno lugarejo alemão adora sua cerveja e detesta a do vizinho.Não há marca nacional de cerveja na Alemanha.A produtividade é muito baixa. Nos EUA, 67 cervejarias produzem 23 bilhões de litros por ano,na Alemanha, as 1000 cervejarias produzem a metade disso.
Isolamento,falta de exposição, falta de competição, induzem baixa produtividade. Cerveja na Alemanha é cultura, e por isso,protegida.Ok,mas o trade off tem que ser entendido:ou produto protegido,ou produto competitivo.Não dá para ter os dois.
Vão dizer que não tem nada a ver,mas eu acho que tem: será que esse negócios de cotas para negros em universidades -essa "proteção" -é uma coisa boa para os negros?

20/06/2008

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Quer construir um país desenvolvido? Saiba que cultura conta muito

Japão e Noruega estão entre os países mais desenvolvidos do mundo mas são totalmente diferentes. Não há fórmula.Isso,porém, não quer dizer que valha qualquer coisa.Vale não.
O grupo dos desenvolvidos tem características comuns que definem um bom ponto de partida se você quiser projetar um país do zero.O scholar argentino Mariano Grondona (Google!Google!) propôs uma maneira de classificar as normas culturais que influenciam diretamente o desenvolvimento de um país (podem não bastar, mas sem elas nada feito.Elas são o ticket de entrada para o jogo).
1. Normas ligadas ao comportamento individual-
Forte ética do trabalho.Reconhecimento de que sua vida depende de você, não dos “deuses” ,ou do chefe,ou dos políticos....Fatalismo é ignorância(“foi Deus que quis que eu fosse pobre”).Tem que haver a crença de que nosso esforço pessoal pode produzir resultados NESTA VIDA, e não apenas na próxima. Pense no Brasil.Note como incentivo ao parasitismo social, paternalismo do estado,”pobrismo”, assistencialismo.. pode nos empurrar na direção errada.
2. Normas ligadas ao comportamento coletivo (cooperação).
Antes de tudo,a crença em que a vida não é um jogo de soma zero,e que vale a pena cooperar.Sociedades que acham que há um bolo fixo de riqueza, e que você “tem que pegar logo sua fatia,se não alguém pega”,não conseguem se desenvolver.A cultura tem de estimular a justiça (fairness) e punir com rigor os fraudadores. Sem regra da lei não dá. Repare como corrupção estimula a mentalidade errada
3. Normas ligadas à inovação
Culturas que são mais racionais, mais baseadas na mentalidade científica ,são mais inovadoras. As que se baseiam em “mágicas” ou “espíritos”,são menos inovadoras. Culturas mais científicas são naturalmente experimentadoras,livres para tentar,celebram a variedade,não estigmatizam o erro.Rigidez ortodoxa paralisa a inovação. Controle central não dá.É fundamental também que a cultura dê suporta à competição e celebre as conquistas individuais. Tem que ser possível TER COISAS (individualmente).Direito de propriedade.Culturas excessivamente igualitárias reduzem o incentivo ao risco individual que é fundamental para a inovação... (continua)

22/06/2008

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